Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

O tricô voltou a ser bastante popular. O que acha que está por detrás desta nova moda?
Desde adolescentes a estudantes universitárias, passando por mulheres com carreiras e novas mães, há todo um grupo de pessoas a aderir ao mundo “avozinha chic”. Uma parte é ironia, outra nostalgia pelos “bons velhos tempos”. Além disso, tricotar é uma actividade que aproxima as pessoas. Todos nós queremos fazer amizades. E esse aspecto é muito importante; uma das consequências é o boom de blogues de tricô na Internet. Mas há também outro aspecto importante. Acho que tricotar tem um efeito bastante terapêutico, há algo de relaxante e de aliviador do stress nessa actividade. Mantemos as mãos ocupadas – algo positivo para pessoas que estão tão stressadas que já não conseguem relaxar naturalmente – e podemos nos desligar. Não estou a dizer que tricotar não requer que se pense. Porque requer! Alguns dos padrões são bastante intricados e temos de ser tão boas como as nossas avós eram para os fazer bem. Mas usamos uma parte do cérebro diferente da que usamos quando estamos a trabalhar. Os dedos começam a executar o trabalho e repetimos os passos – há uma grande memória muscular – e as agulhas começam a retinir e sentimos a tensão no cérebro a desvanecer.
Por fim, todas nós gostamos de ter coisas que nos fazem sentir bem. Produtos feitos à mão e em casa são, neste momento, muito populares. Feitos pelas nossas próprias mãos? Bem, isso é ainda melhor.
 
Faz tricô?
Sim, e gosto de projectos rápidos e divertidos! Quando faço tricô, é como se fizesse uma pausa – normalmente da escrita – e costumo agradar à criança que há em mim fazendo um marcador rosa-choque ou algo de que não preciso, como uma meia para o telemóvel. O tricô é um hobby divertido. Por outro lado, as minhas avós faziam muito bem tricô e tricotavam peças para serem quentes e duradouras: mantas, camisolas, roupas para bebé. Mesmo agora, tenho uma manta verde e amarela no fundo da cama que a minha avó me fez há trinta anos. Há algo de maravilhoso em envolvermos os pés numa manta que não é apenas algo que está na nossa família há anos, mas que, literalmente, foi tricotado com amor por alguém que nos adorava. Isso é algo muito poderoso.
 
A sua vida serviu de inspiração para este romance?
Para mim, O Clube de Tricô de Sexta à Noite é, no fundo, um romance sobre relações; o tricô serve como uma metáfora e o clube como um fio condutor para aproximar este grupo bastante distinto de mulheres. E quando estamos numa cidade tão grande e movimentada como Nova Iorque, é muito fácil perdermo-nos no meio da multidão. A loja torna-se num lugar de paz para cada uma das personagens. Elas sabem que podem respirar fundo e deitar tudo cá para fora. Todas nós precisamos de um lugar assim, um grupo de amigas mesmo ao virar da esquina. E, desse modo, consegui ir buscar a inspiração a experiências pessoais bastante ricas, porque tive a felicidade de ter na minha vida esse tipo de amizade. Ainda mantenho contacto com as amigas da minha juventude. Apesar de ser cada vez mais difícil, por estarmos espalhadas por todo o país, arranjarmos fins-de-semana para nos encontrarmos ainda constitui uma prioridade. Porquê? Porque a verdadeira amizade é algo difícil de encontrar e que temos de estimar. Por isso, fui buscar inspiração a estas relações, à memória das minhas avós que faziam tricô e ao meu amor por Nova Iorque para construir este mundo maravilhoso da loja de lãs Walker & Filha.
 

Georgia Walker, a sua heroína, é baseada em si ou em alguém que conhece?

A resposta mais curta é não. A mais longa e mais ponderada é que percebo a tendência para assumir que os romances, especialmente os primeiros, são semiautobiográficos. E interrogo-me sobre o mesmo tipo de coisas quando leio obras de outros escritores! Mas esse não é o caso aqui. Está bem, há uma coisa: a minha avó era escocesa. E gosto muito de biscoitos de manteiga. Mas, para além disso, a história de Georgia é só dela, quer na forma como encara as relações, gere o seu negócio ou se defende. E apesar de partilhar as mesmas emoções, as minhas experiências de vida não são iguais às de Georgia – ela é mãe, faz tricô muito melhor do que eu, e cresceu numa quinta.
Em relação a criar a Georgia a partir de alguém que conheço, não fiz isso. Senti-me muito lisonjeada quando uma das irmãs mais velhas do meu marido, que é mãe solteira, me disse que o que escrevi sobre a Georgia lhe fez lembrar as suas próprias experiências. Mas essa minha cunhada é completamente diferente da Georgia. Quando penso nas coisas que mais gosto na personagem da Georgia – ela é forte, inteligente, corajosa, carinhosa, imperfeita –, apercebo-me de que de que poderia retirar cada uma dessas qualidades e aplicá-la a quase todas as minha amigas e familiares. Simplesmente criei uma personagem que eu própria gostaria de conhecer.
 
Baseou a relação unida e tumultuosa da Georgia com a filha, Dakota, na sua própria experiência familiar?
Há uma grande convulsão familiar ao longo do livro, mas isso retrata apenas a vida real. Onde há grande amor também pode haver grande intensidade. Eu nunca tive uma guerra de pés com a minha mãe no sofá, posso garantir-lhe isso. Esses eram os jogos que jogava com a minha irmã mais velha. Mas imagino que haja essa proximidade que existe entre irmãs quando se tem uma filha com uma idade ainda muito jovem. Quanto às discussões, não tínhamos todas discussões com as nossas mães com essas idades? Lembro-me sempre de querer o meu espaço quando tinha a idade da Dakota e a minha mãe insistir que fosse lá para baixo para me juntar à família e “conversarmos”. Isso era impossível, é claro, uma vez que ninguém me compreendia. Por isso, sim, já fui uma rapariga e usei essas experiências como um ponto de partida.
 
No seu romance, lida com as questões inter-raciais com uma grande sensibilidade. Há relações inter-raciais na sua família?
Não, apesar de ter tentado lidar com as histórias de cada uma das personagens com grande sensibilidade e de algumas histórias incluírem questões relacionadas com a raça. Há uma escola de pensamento que aconselha “escreve sobre o que conheces”. E é provavelmente óbvio que não subscrevo essa filosofia, já que não sou um homem branco ou negro, nem uma adolescente birracial, uma jovem recém-casada de ascendência asiática, uma viúva judia de 72 anos, uma mãe solteira e por aí adiante. Não sou nenhuma das personagens. Mas sou uma pessoa, com os meus próprios triunfos e desafios. E como escritora, vejo-me como uma contadora de histórias, e lido com tudo o que escrevo tentando perceber as emoções e a forma como as pessoas se relacionam entre si. O que motiva uma personagem, a faz ser envolvente e apelativa. O que sei é que a Nova Iorque em que vivi era um quadro colorido e eu queria que o romance reflectisse isso.
 
As outras personagens são baseadas nas suas amigas?
É engraçado, mas algumas pessoas que fazem parte da minha vida estavam à espera de se verem imortalizadas no papel. Talvez noutro livro! Mas isso não aconteceu aqui. É claro que há alguns acontecimentos da minha vida pessoal que me ajudaram a saber como é que as personagens iriam reagir perante certas situações – por exemplo, uma grande amiga do liceu de quem eu perdera o contacto. Assim, sei o que é sentir muito a falta de alguém, da mesma forma como a Cat e a Georgia reconheceram, tardiamente, o valor da verdadeira amizade. Mas, ainda bem que não houve o mesmo nível de drama na minha vida e nós reatamos a nossa amizade anos depois de forma discreta (pegámos no telefone). Eu manifesto pequenos traços em algumas das personagens e as pessoas que me conhecem bem conseguem perceber onde fiz isso.
 
Foi difícil passar da escrita para revistas para a escrita de um romance?
Sim e não. Por um lado, passei a minha carreira a escrever para revistas femininas e tinha como prioridade focar-me em conteúdos relevantes para as mulheres. Assim, este romance encaixa bem na minha formação. Por outro lado, a perspectiva de escrever um romance era uma grande novidade para mim. Houve alturas em que estava muito envolvida na história e questionava-me se seria capaz de a concluir. Outras vezes, a liberdade para explorar e seguir as personagens para onde elas me levassem sem ter de me preocupar com a falta de espaço foi bastante estimulante. Escrevia e continuava a escrever até onde bem me apetecesse – e isso foi um luxo que nunca tive. O facto de poder escrever usando a minha própria voz foi outro factor entusiasmante. Não tinha de inserir citações de especialistas e dicas como num artigo. Podia fazer como bem entendesse e inserir toda a espécie de filosofias pessoais, desde o papel das mulheres na sociedade, passando pelo mérito de sermos fiéis a nós próprias até ao poder da amizade entre mulheres. O meu irmão disse-me que conseguia ouvir a minha voz ao ler o livro, e penso que isso é bom.

 

 

Se o seu livro for adaptado ao cinema, que actores seriam a sua primeira escolha para interpretar Georgia, Dakota e James?
Bem, em primeiro lugar, seria óptimo se o meu livro desse lugar a um filme. Eu tinha imagens muito vívidas na minha mente ao escrever o livro, desde as chávenas de chá da avó, passando pela mobília pobre da Georgia até aos novelos coloridos da Walker & Filha, e fascina-me imaginar o que um realizador conseguiria fazer com o livro. Pessoalmente, penso que todas as personagens ficariam bem no grande ecrã, e consigo pensar num elenco maravilhoso para dar vida ao livro. É claro que adoraria que a Julia Roberts interpretasse o papel de Georgia, o que provavelmente é bastante óbvio pela pequena cena engraçada que escrevi na qual uma estudante de Cinema entra na loja à procura dela. E essa cena foi escrita muito antes de algum capítulo ter sido enviado para Hollywood! Quanto a Dakota e ao James, penso que tem tudo a ver com a química entre actores. Mal a Georgia fosse escolhida, o resto encaixar-se-ia.

 

(Entrevista de Kate Jacobs ao site Reading Groups Guides).



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