Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

 

 

Qual a razão que a levou a escrever?

É uma compulsão que me apanhou por volta dos meus cinco anos de idade, quando comecei um diário e em pouco tempo descobri que TINHA de escrever para as coisas me fazerem sentido. Ainda escrevo por essa razão, apesar de não ser uma escolha consciente; algumas pessoas correm, outras meditam, eu escrevo. Eu escrevo movida pelo medo, a ansiedade, o entusiasmo, o amor, e quando quero mesmo desabafar. Chegou a um ponto em que fico verdadeiramente ansiosa se não tiver uma caneta e uma folha por perto.

 

Acredita em anjos?

Não sei se os anjos têm asas com penas e halos, por isso retrato Margot, em Diário do Anjo da Guarda, como tendo cascatas a correr nas costas em vez de asas. Mas acredito na existência de anjos e que são expressões do amor de Deus pela humanidade. Sou fascinada pelo mundo espiritual, por aquele lado da realidade que poucas pessoas conseguem ver.

 

Quanto tempo demorou a escrever Diário do Anjo da Guarda?

Escrevi as primeiras cinquenta páginas num período de cerca de quatro semanas. Enviei-as àquela que é agora a minha agente, que me respondeu por e-mail nessa mesma noite a dizer que queria ver o resto do manuscrito. Passei a noite a transpirar porque: a) Ainda não tinha escrito o resto; b) Tinha A agente que verdadeiramente queria, entre todos os interessados na minha obra; e c) não fazia ideia de como ia escrever o resto, já que o semestre estava quase a começar e seria virtualmente impossível escrever estando a trabalhar a tempo inteiro. Por isso, enviei-lhe um e-mail e perguntei-lhe: “Pode dar-me duas semanas?”, sendo que ela respondeu que sim. Assim, cancelei todas as reuniões, compromissos, eventos sociais e actividades domésticas que poderia ter, e escrevi o resto do livro. Onze dias depois, tinha-o acabado, e no dia seguinte assinei com a minha agente. Um mês depois o livro já tinha sido vendido para dez países.

 

A premissa de Diário do Anjo da Guarda é bastante original: uma mulher que se torna no seu próprio anjo da guarda depois da sua morte. Como lhe surgiu esta ideia?

Quando olho para o que escrevi durante estes anos, mesmo quando era criança, encontro sombras do livro. Sou fascinada pela maternidade, por anjos, pelo arrependimento, e acho que estes três temas se fundiram no meu subconsciente para produzir este livro. Nesse aspecto, diria que a experiência da maternidade dominou o meu processo de pensamento – esse feroz amor e sentimento de protecção que nos arrebata quando temos um filho parecem-me ser a essência dos anjos.

 

Que conselho daria a alguém que quisesse ser escritor?

Primeiro e acima de tudo, escrevam, e não apenas actualizações no Facebook, no Twitter ou em blogues. Pensem no que estão a escrever. Tomem apontamentos. Recomendaria um bom manual de escrita com exercícios inspiradores para ajudar a escrever quando não nos apetece. Recomendaria também ter uma caneta e uma folha constantemente por perto; hoje em dia até uso o bloco de notas no meu telemóvel quando tenho uma ideia repentina. Também encorajaria o pretendente a escritor a tentar todas as formas de escrita: poesia, prosa, drama radiofónico. Vejam o que melhor se adequa a vocês, e pode ser que encontrem mais do que um tipo, o que é muito bom. Leiam fora da vossa zona de conforto. Vão a festivais literários e a todos os eventos que possam. E, acima de tudo, não rejeitem as vossas próprias ideias. Trabalhem-nas até que brilhem de genialidade. Nunca desistam!

 

Qual é sua rotina de escrita? Escreve todos os dias, tem um espaço próprio para escrever, tem certos rituais?

Escrevo quando e onde posso. Os meus filhos ainda são muito novos – tenho três com menos de quatro anos – e trabalho a tempo inteiro, por isso não me posso dar ao luxo de ter uma hora ou lugar específicos para escrever. Também me apercebi há muito tempo que precisava de ser bastante flexível na minha escrita para poder escrever quando estivesse no lava-louça, ou na minha cabeça, se não tivesse um papel e uma caneta. Acho que esta capacidade me poupa bastante tempo, o que no meu caso é importante já que não tenho muito tempo livre!

 

Qual o seu livro preferido de todos os tempos?

É atirar uma moeda ao ar e escolher entre a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio. Tive de estudar ambos os livros para o meu exame de Latim no secundário, quando tinha quinze anos, e depois na universidade, e nunca me cansei deles. São multifacetados, sempre relevantes e absolutamente intemporais.

 

Já alguma vez achou a escrita difícil?

Claro que sim! Há dias em que tenho dificuldade em me abstrair das distracções – muitas vezes por bons motivos – e é preciso sempre ter disciplina para nos sentarmos e regressarmos à história ou ao poema. Li recentemente que Jonathan Franzen sente que quando escreve um novo livro é como nunca tivesse escrito um romance, e sei perfeitamente o que sente. É como ter um filho – achamos que já aprendemos alguma coisa do último que tivemos, mas cada criança requer um novo conjunto de ferramentas e conhecimentos parentais. Para além da distracção, acho que a maior barreira à escrita é o desencorajamento. É ainda maior do que a rejeição – sentir que o que quer que escrevemos é um monte de disparates é verdadeiramente demolidor. Mas o truque é continuar a tentar até encontrarmos um pequena petita de ouro entre o lixo. E todos os dias são diferentes – há dias em que só conseguimos escrever lixo (lembro-me sempre de James Joyce se lamentar aos amigos de que só conseguia escrever sete palavras por dia; isso mesmo, sete) e outros em que tudo se transforma em ouro. É preciso ser bastante persistente.

 

O que está actualmente a escrever?

Estou agora a rever o meu segundo romance e a trabalhar no meu terceiro. Estou também a trabalhar numa segunda colectânea de poesia, por entre várias comissões e colaborações.



publicado por Rita Mello às 14:28 | link do entrada | comentar | favorito
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