Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

 

 

De onde surgiu a inspiração para Uma Casa de Família?

Sempre quis escrever alguma coisa passada na aldeia fantasma de Tyneham, no Dorset, que foi requisitada pelo Ministério da Guerra em 1943. Os habitantes foram obrigados a abandonar as suas casas na véspera de Natal e deixaram este bilhete afixado na porta da igreja:

“Por favor, tratem esta igreja e estas casas com cuidado; deixámos os nossos lares, onde muitos de nós vivem há gerações, para ajudar a vencer a guerra de modo a que os homens possam continuar a ser livres. Voltaremos um dia e agradecemos que cuidem bem da aldeia.”

Mas eles nunca foram autorizados a regressar e a aldeia é hoje em dia uma ruína. Está situada numa das mais bonitas extensões da costa inglesa, mas a terra ainda pertence ao Ministério da Defesa e só ocasionalmente são permitidas as visitas.

Enquanto estava a ponderar sobre Tyneham, li um artigo numa revista sobre judias que tinham conseguido escapar à Europa nazi ao tornarem-se criadas na Grã-Bretanha. Muitas destas mulheres tinham levado vidas privilegiadas com os seus próprios criados e tiveram de se adaptar a uma nova realidade. Num momento de revelação, apercebi-me de que tinha de contar a história de Tyneham e dos últimos dias da Inglaterra das casas de campo através dos olhos de uma estranha e criada, uma jovem judia de Viena.

Quando fecha os olhos e imagina os seus leitores, quem vê?

Quando comecei a escrever Uma Casa de Família, apercebi-me de que Elise queria que eu saísse do caminho e que fosse ela a contar a sua própria história. Penso que nesse momento senti-me como se fosse eu a leitora.

Já sabia muito sobre o Dorset e sobre essa época antes de começar o livro? Que quantidade de pesquisa teve de fazer?

Mergulhei na literatura da época. Diverti-me imenso enquanto ia lendo toda uma estante de livros reeditados pela Persephone. Passei semanas no pavilhão de verão no fundo do jardim a ler, desde Mariana às Wartimes Stories de Mollie Panter-Downes, bem como muitas obras de Daphne du Maurier, Evelyn Waugh e vários relatos de não ficção sobre a vida dedicada ao serviço doméstico e sobre a tradição das casas de campo. Eu e o meu marido passámos uma temporada a ver filmes antigos, como Breve Encontro e Sangue, Suor e Lágrimas; os filmes ajudaram-me muito a apurar o ouvido para padrões de linguagem. Eu gosto de imergir na cultura e no período histórico antes de começar a escrever, pois assim as coisas surgem-me instintivamente.

Em relação ao Dorset, eu cresci aí e adoro o campo. Está sempre a mudar. Neste momento os narcisos está a florir e a seguir vão ser as flores da maçã e os castanheiros-da-índia e depois, o melhor de tudo, as campainhas.

Tyneford, a grande mansão sobre a baía onde se passa a maior parte da história, parece bastante real. É baseada numa propriedade verdadeira? Gostaria de viver num lugar parecido com Tyneford?

Tyneham, a aldeia abandonada na costa do Dorset, serve de inspiração para Tyneford. A história no romance sobre a forma como a aldeia foi evacuada é baseada na realidade. Existia lá uma mansão, mas nunca a vi, já que fica nas profundezas dos terrenos do Ministério da Defesa. Descobri algumas fotografias velhas e plantas da casa num livro, que afixei por cima da minha secretária, e o meu marido descobriu uma velha gravura vitoriana numa pequena loja e mandou emoldurá-la para me dar no meu aniversário. Casas como a de Tyneford pertencem a uma época com pessoal doméstico. Adoro todo o romance, mas acho que a minha pequena casa de pedra é mais prática. Apesar disso, adoro janelas com pinázios…

Elise não era uma judia praticante, mas não estava disposta a envolver-se noutras religiões ou cerimónias religiosas. A fé é importante para si?

Tal como Elise, sinto-me bastante desconfortável em relação à religião. Gosto do som do chantre ou de um coro; alguma da melhor música do mundo foi escrita em louvor de Deus, mas para mim a música é suficiente.

Acha que toda a gente pode amar mais do que uma pessoa?

Há muitos tipos de amor. Acho que muitas pessoas sentem muitos deles: platónico, filial, romântico… e espero sinceramente que a maioria das pessoas possa amar mais do que uma vez, senão o mundo seria um lugar bastante solitário. Depois de um desgosto, pode levar algum tempo a voltarmo-nos apaixonar e todos os amores são diferentes.

Onde escreve?

Na primavera e no verão escrevo principalmente num pequeno pavilhão de verão no fundo do jardim. Nos dias frios, tenho um estúdio debaixo da caleira. Nos dias gelados, escrevo junto à lareira.

A leitura é importante para si? Que livros a influenciaram mais e acha que alguns desses livros devem ser lidos por toda a gente?

Adoro ler. Tal como a maioria dos escritores sou obcecada por histórias: quer sejam romances, filmes ou simplesmente uma anedota. Sou uma grande fã de Jane Austen. Releio frequentemente os seus romances e sinto que as minhas leituras mudam com o tempo. Quando era adolescente adorava Orgulho e Preconceito por causa do romance, enquanto que em adulta adoro a melancolia e o final feliz de compromisso de Persuasão.

Não concordo que haja livros “que toda a gente deva ler”. O que a literatura tem de bom é que todos nós gostamos de coisas diferentes. Apesar de adorar Jane Austen, percebo que nem toda a gente gosta e que as obrigar a ler Persuasão não as vai converter.

Há muitos livros de que gosto. Os que mais influenciaram Uma Casa de Família foram provavelmente Rebecca, Reviver o Passado em Brideshead, Anel de Areia, Expiação, Os Despojos do Dia e, é claro, o decano de todos os romances de casa de campo, Jane Eyre. Lembro-me do prazer e da intensidade da leitura das Brontë quando era adolescente e de querer recriar o fervor dessa experiência, nem que fosse através de uma simples leitura.

Quais os livros preferidos da sua infância?

The Magic Faraway Tree, de Enid Blyton. Quando tinha seis anos, escrevi ao programa Jim’ll Fix It a pedir a Jim que me apresentasse Moonface, Silky, Saucepan e Dame Washalot. Queria mesmo muito trepar à Faraway Tree e visitar o mundo dos doces no topo.

Se tivesse direito a um desejo, qual seria?

Encontrar a Magic Faraway Tree e visitar o mundo dos doces e comer tudo que tivesse sabor a gelado.

Em que está a trabalhar agora?

Estou a trabalhar no terceiro livro, por isso nos próximos tempos vou estar no fundo do jardim imersa em livros.



publicado por Rita Mello às 10:21 | link do entrada | comentar | favorito
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