Segunda-feira, 23 de Março de 2009

O pai de Roopa Farooki, autora de Agridoce, foi um mentiroso compulsivo e foi condenado diversas vezes por crimes de colarinho-branco, mas, ao menos, não era uma pessoa aborrecida. Em baixo, deixo-vos com a primeira parte de um artigo de Roopa Farooki publicado no The Guardian, em que a autora revela como foi crescer com um pai digno de uma personagem de um romance.

 

“Então, Roopa, o que a inspirou?” Era uma pergunta bastante óbvio e, por isso, eu devia estar preparada para ela. Estava sentada num gabinete abafado naquela que seria em dentro em breve a minha editora. Tinha deixado o meu bebé com três semanas com o pai e uma garrafa com leite materno, e como a King’s Cross estava fechada, fora obrigada a vir a pé desde Euston no pico do sol. À chegada, tive de ouvir com espanto uma sala cheia de pessoas que trabalham em edição a dizer o quanto adoraram o meu primeiro romance, que é sobre três gerações de uma família de Bengali cujas relações são definidas e comprometidas pela mentira. E depois chegou a pergunta óbvia. Eu sabia a resposta e, apesar de querer vontade de mentir, estava demasiado aturdida para inventar algo de convincente em tão curto espaço de tempo. Por isso, disse a verdade.

 

 

Expliquei que o meu interesse pessoal no impacto dos enganos nas famílias – todos aqueles factos incómodos que são varridos para debaixo do tapete e ignorados em nome do bem comum, todas aquelas mentiras imaginativas que usamos para a nossa comodidade e para esconder coisas – se devia ao meu pai, um charmoso e incurável vigarista que achava que dizer a verdade era aborrecido, uma vez que era pouco imaginativo. O facto de outras pessoas dizerem a verdade levou-o à prisão em mais do que uma ocasião e em mais do que um país. Ele continuou a fazer isso quando já era um sessentão com idade para ter juízo. A última que me lembro dele foi quando vendeu a alguém um barco em Paris – o que não é nenhum crime, só que o barco não era dele.

 

 

Todas as famílias têm a sua ovelha negra, e na minha, era o meu pai. O que também era muito confuso, já que ele também era o mais admirado; era o filho mais velho, tinha um QI impressionante e fora para a Universidade de Stanford tirar um mestrado com a tenra idade de dezanove anos. Falava diversas línguas (inglês, francês, alemão, urdu, punjabi e até algum espanhol e árabe) e fez grandes somas de dinheiro como empreendedor. Frequentou a alta sociedade em vários países e tratava pelo primeiro nome o género de pessoas que aparece na Tatler, tais como James Goldsmith e John Aspinall. Até escreveu romances que foram alvo de recensões. Faces of Love and Death foi considerada como uma “obra de talento” pela imprensa britânica; Snakes and Ladders foi descrita como “uma excursão ousada e sem complacências na vida da burguesia [paquistanesa] à medida que ia cortando a sua própria garganta”. E mesmo depois de anos de mau comportamento errático, durante os quais abandonou a família, foi à bancarrota arrastando outras pessoas pelo caminho e levou uma vida nómada e alegre em vários hotéis espalhados por todo o mundo, desde Atlantic City a Singapura, passando por Sydney, a sua numerosa família ainda se referia a ele com uma mistura de afecto e exasperação. “Bhai Sonny podia ter sido um grande homem, o mais bem-sucedido de todos nós. Meu Deus, quando penso em todo o dinheiro que ele ganhou… e perdeu…”, disse-nos o irmão mais novo dele (um homem bastante rico) durante uma breve visita a Carachi, abanando lamentosamente a cabeça por causa de tão chocante desperdício.

 

A verdade é que o meu pai, tão charmoso e tão talentoso, era um jogador compulsivo e usava todo o seu talento considerável para alimentar o seu vício, enquanto negava alegremente que estava a fazer alguma coisa do género. O jogo preferido dele era o blackjack, e nunca deixou de acreditar que era esperto o suficiente para vencer a casa. Ele apagava os rastos com um à-vontade elegante, enganando investidores inconscientes no seu passatempo. Foi sempre capaz de mentir sem sentir qualquer sentimento de culpa sobre a coisa mais pequena e insignificante; ele fingia ir ter ido à loja de limpeza a seco, quando era evidente que tinha ido à pastelaria na esquina. Se nos atrevêssemos a questioná-lo sobre o motivo por que tinha migalhas de bolo no casaco, ele ficava ofendido, como se tivéssemos demonstrado a maior falta de maneiras. Quando era pequena habituei-me a não questionar o que dizia; era mais fácil assim.

 

Quando atravessava fases boas, o meu pai era o homem mais generoso do mundo. Vivíamos num apartamento pequeno mas elegante em Knightsbridge, e ele levava-nos num impulso para Monte Carlo, ou para ficarmos alojados no Hotel George V em Paris, onde eu e as minhas irmãs estávamos autorizadas a usar o room service e a saltar nas nossas camas extravagantes; mas, quando perdia as dezenas de milhares de libras que ganhara na semana anterior, ele simplesmente desaparecia, às vezes durante meses a fio, até ter recuperado o suficiente para voltar a mostrar a sua cara nos elegantes clubes de Mayfair.

 

A sua ausência durante grandes períodos não me afligia muito; acabei por habituar-me a que ele não estivesse connosco, ao ponto de se tornar quase inconveniente quando estava.

 

A nossa mãe lidou com o ciclo banquete/fome tornando-se excessivamente poupada com as lides domésticas, percorrendo quilómetros a pé até aos mercados para poder poupar dinheiro com as mercearias e para conseguir pagar a renda do nosso apartamento; de tal modo que quando o nosso pai reaparecia, distribuindo notas de cinquenta libras pelas três filhas como se fossem doces, nós perguntávamos-lhe, imbecilmente, “Porque é que o abbu é tão rico e amma tão pobre?”.

 

O meu pai abandonou-nos definitivamente quando eu tinha treze anos. Recordo-me vagamente dele dizer que ia às compras; estava tão habituada à constante ausência do meu pai e à sua partida que demorei meses a aperceber-me de que ele se fora embora de vez. Não tínhamos dinheiro no banco, mas a minha mãe, que fora uma dona de casa durante quase vinte anos, arranjou emprego como professora para poder pagar a renda. Os únicos sinais de vida que tínhamos dele eram as contas de hotel por pagar que ocasionalmente nos chegavam a casa e que as ignorávamos ou devolvíamos.

 

A minha mãe e eu encontramo-lo alguns anos depois no Paquistão quando eu tinha dezasseis anos; apesar de ainda gostar dele, ela decidira que o melhor para nós era pedir o divórcio. O meu pai estava bem-disposto e amigável como sempre. Conhecera uma enfermeira sino-americana vinte anos mais nova e estava a viver com ela em Nova Iorque; casaram pouco depois, pelo menos, era o que ele dizia. Não foi ninguém ao casamento nem houve fotos da cerimónia. Foi uma daquelas coisas que ele dizia que todos nós aceitávamos. Mas as suas aventuras continuavam ininterruptamente e não mostrava indícios de assentar.

 

 

 



publicado por Rita Mello às 17:39 | link do entrada | comentar | favorito
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