Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009


LONDRES, SETEMBRO DE 1928

 

Jovem adulta responsável, vinte e oito anos, gosta de crianças, conhece a Índia, oferece-se como dama de companhia de Tilbury até Bombaim em troca de meio bilhete.

 

Viva Holloway achou que era magia quando, tendo pago três xelins e seis pence para que o seu anúncio aparecesse na edição mais recente da The Lady, cinco dias depois deu por si no restaurante Derry & Toms, em Londres, à espera da sua primeira cliente, Mrs. Jonti Sowerby de Middle Wallop, em Hampshire.

Para a entrevista, Viva vestira não a habitual mistura de sedas emprestadas e peças de saldos, mas o fato cinzento de tweed que abominava mas que usara durante o trabalho temporário como dactilógrafa. O seu cabelo – espesso e escuro, com tendência para o indisciplinado – fora humedecido e apanhado num pequeno rolo.

Entrou no ambiente senhorial do salão de chá, onde um pianista tocava uma melodia frívola. Uma mulher pequena e delgada como uma ave, usando um extraordinário chapéu azul (uma espécie de gaiola com uma plumagem azul espetada atrás) levantou-se para a cumprimentar. Ao seu lado estava uma jovem roliça e silenciosa que, para considerável espanto de Viva, Mrs. Sowerby apresentou como sendo a sua filha Victoria.

Estavam as duas rodeadas por um mar de embrulhos. Foi sugerida uma chávena de café, mas, infelizmente, nada de bolo. Viva não comia desde o pequeno-almoço e havia um bolo de noz de aspecto delicioso, juntamente com alguns scones, sob a cúpula de vidro no balcão.

– Ela parece muito jovem – queixou-se imediatamente Mrs. Sowerby à filha, como se Viva não estivesse ali.

– Mãezinha – protestou Victoria numa voz estrangulada e, quando a rapariga se virou para olhar para ela, Viva reparou que tinha uns olhos maravilhosos: enormes e de um invulgar azul-escuro quase como o de uma centáurea. Desculpe, não consigo evitar isto, diziam.

– Bem, lamento querida, mas parece. – Mrs. Sowerby franzira os lábios sob o seu sensacional chapéu. — Oh, Céus, isto é um problema!

Numa voz tensa, dirigiu-se finalmente a Viva, explicando que Victoria partiria dentro de pouco tempo para a Índia, onde seria dama de honor da sua melhor amiga, Rose, que ia, e aqui um certo arrastar exibicionista surgiu na voz de Mrs. Sowerby, «casar com o capitão Jack Chandler do Terceiro Regimento de Cavalaria na Catedral de St. Thomas, em Bombaim».

A dama de companhia que tinham contratado, Mrs. Moylett, desistira à última hora – devido a um súbito noivado com um homem mais velho.

Viva pousara a chávena e arvorara o que sentia ser uma expressão responsável; apercebera-se de um certo desespero nos olhos da mulher, de um desejo de ver o assunto resolvido rapidamente.

– Eu conheço Bombaim bastante bem – dissera, o que era verdade até certo ponto: passara pela cidade nos braços da mãe com a idade de dezoito meses, depois novamente com cinco, tendo comido um gelado na praia, e pela última vez com dez anos, para nunca mais voltar. – A Victoria ficará em boas mãos.

A rapariga virou-se para Viva com um olhar esperançoso.

– Pode tratar-me por Tor, se quiser – disse ela. – Todos os meus amigos o fazem.

Quando o empregado apareceu novamente, Mrs. Sowerby exigiu beber uma tisana em vez de um «chá inglês banal».

– Sou meio francesa, sabe – explicou mal-humorada a Viva, como se isso desculpasse tudo.

Enquanto procurava qualquer coisa na sua pequena carteira de crocodilo, a filha calada virou-se para Viva e revirou os olhos. Desta vez os seus lábios esboçaram em silêncio a palavra «desculpe», depois ela sorriu e entrelaçou os dedos.

– Sabe alguma coisa sobre arcas de viagem? – Mrs. Sowerby mostrou os dentes a um pequeno espelho. – Mrs. Moylett também tinha prometido ajudar-nos com isso.

E por milagre Viva sabia: na semana anterior vasculhara as primeiras páginas do Pioneer à procura de possíveis empregos, e um tal Tailor Ram colocara um enorme anúncio sobre arcas.

Olhou calmamente para Mrs. Sowerby.

– A Viceroy é excelente – disse. – Tem uma tela de aço sob as gavetas de lona. Pode comprá-la na Loja do Exército e da Marinha. Não me lembro exactamente do preço, mas penso que ronda os vinte e cinco xelins.

Houve uma pequena agitação no restaurante, e o tinir de talheres foi momentaneamente suspenso. Uma atraente senhora de meia-idade, com um fato de tweed desbotado e um chapéu prático, tinha chegado; sorria ao avançar na direcção delas.

– É Mrs. Wetherby. – Tor levantou-se com um ar radiante e abraçou a mulher mais velha.

– Sente-se. – Bateu na cadeira ao seu lado. – A mãezinha e eu estamos a ter uma conversa emocionante sobre calças de montar e chapéus coloniais.

– É isso mesmo, Victoria – disse Mrs. Sowerby –, certifica-te de que o restaurante todo ouve a nossa conversa. – Virou-se para Viva. – Mrs. Wetherby é a mãe de Rose. A que vai casar na Índia com o capitão Chandler. É uma rapariga excepcionalmente bonita.

– Estou desejosa de que a conheça. – Tor parecia subitamente radiante. – Ela é muito divertida e tão perfeita que toda a gente se apaixona por ela; conheço-a desde pequena, andámos juntas na escola, montámos póneis…

Viva sentiu uma angústia familiar – era maravilhoso ter uma amiga que se conhecia desde criança.

– Victoria – censurou a mãe. A pluma azul suspensa sobre a sobrancelha dava-lhe um ar de pássaro amuado. – Não sei se precisamos de dizer já tudo isso a Miss Holloway. Ainda não decidimos. A propósito, onde está a querida Rose?

– No médico. – Mrs. Wetherby pareceu um pouco envergonhada. – Sabe como é… – Bebeu um gole de café e dirigiu a Mrs. Sowerby um olhar significativo. – Mas tivemos uma manhã emocionante antes de eu a deixar lá – continuou suavemente. – Comprámos vestidos e raquetas de ténis e irei ter de novo com a Rose daqui a uma hora em Beauchamp Place… vão tirar-lhe as medidas para o enxoval. A pobre rapariga vai estar derreada esta noite; acho que nunca comprei tantas roupas num só dia. E quem é esta jovem encantadora?

Viva foi apresentada a Mrs. Wetherby como «uma dama de companhia profissional». Mrs. Wetherby, que tinha um sorriso doce, apertou-lhe a mão e disse que era um prazer conhecê-la.

– Já fiz a entrevista – disse Mrs. Sowerby a Mrs. Wetherby.

– Ela conhece a Índia como a palma da sua mão e já esclareceu a questão da arca… diz que a Viceroy é a melhor.

– As meninas são muito sensatas – afirmou Mrs. Wetherby com ansiedade. – Mas é reconfortante ter alguém que esteja de olho nas coisas.

– Mas temo que só possamos oferecer-lhe cinquenta libras pelas duas raparigas – disse Mrs. Sowerby –, nem mais um tostão.

Viva ouviu literalmente Tor suster a respiração; viu a sua boca contorcer-se num trejeito pueril de apreensão, os grandes olhos postos nela enquanto esperava.

Viva fez uns cálculos rápidos de cabeça. O bilhete de ida de Londres para Bombaim custava cerca de oitenta libras. Ela tinha cento e vinte libras de parte e iria precisar de algum dinheiro quando chegasse.

– Isso parece muito razoável – disse calmamente, como se fizesse aquilo todos os dias.

Tor libertou o ar dos pulmões.

– Graças a Deus! – exclamou. – Oh, que alegria!

Viva apertou a mão a todas e saiu do restaurante com um novo alento no passo. Aquilo ia ser canja: a palerma de olhos azuis com a mãe de aspecto louco estava claramente desesperada por ir; a amiga, Rose, ia casar e não tinha escolha.

A paragem seguinte seria no Hotel do Exército e da Marinha para falar com uma mulher chamada Bannister acerca de outro possível cliente: um rapaz cujos pais viviam em Assam. Ela remexeu na bolsa e encontrou o pedaço de papel. O nome do rapaz era Guy Glover.

E agora estava sentada com Mrs. Bannister, que se revelou uma pessoa irritadiça, de aspecto robusto e dentes salientes. Devia rondar os quarenta, calculou Viva, embora não fosse boa a adivinhar a idade de pessoas mais velhas. Mrs. Bannister mandou vir para ambas uma chávena de chá morno sem biscoitos e sem bolo.

Mrs. Bannister disse que iria rapidamente directa ao assunto, porque tinha de apanhar o comboio das três e meia de regresso a Shrewsbury. O seu irmão, um produtor de chá em Assam, e a mulher, Gwen, estavam «a braços com um dilema». Guy, o seu único filho, fora «convidado» a abandonar a escola de repente. Tinha dezasseis anos.

– Ele tem sido um rapaz bastante difícil, mas disseram-me que lá no fundo é muito amável – garantiu a tia dele a Viva. – Esteve no Colégio de Saint Christopher durante dez anos sem nunca regressar à Índia. Por diversas razões que não tenho tempo de lhe explicar neste momento, não temos podido vê-lo tanto quanto gostaríamos, mas os pais acham que ele irá dar-se melhor na Índia, afinal. Se puder levá-lo, eles estão preparados para lhe pagar o bilhete na totalidade.

Viva sentiu-se ruborizar de júbilo. Se lhe pagassem o bilhete inteiro e se recebesse ainda as cinquenta libras de Mrs. Sowerby, teria, na Índia, um pouco de espaço para respirar, graças a Deus. Naquele momento nem sequer lhe ocorreu perguntar porque é que um rapaz daquela idade não podia viajar sozinho, nem por que motivo os pais dele, os Glover, não tinham vindo buscá-lo pessoalmente.

– Há mais alguma coisa que queira saber sobre mim, referências e assim por diante? – perguntou ela.

– Não – respondeu Mrs. Bannister. – Está bem, sim, talvez nos deva dar uma referência, suponho. Tem alguém em Londres?

– A minha actual patroa é escritora, Mrs. Driver. – Viva escrevinhou rapidamente o endereço para Mrs. Bannister que, a remexer na mala e a tentar chamar a atenção da empregada, parecia prestes a fugir. – Ela mora em frente ao Museu de História Natural.

– Também vou mandar-lhe um mapa da escola do Guy e o seu primeiro pagamento – disse Mrs. Bannister. – E muito obrigada por fazer isto. – Exibiu todos os seus dentes enormes ao mesmo tempo.

Porém, o que mais surpreendeu Viva ao ver a parte de trás da gabardina de Mrs. Bannister agitar-se na pressa de entrar para o táxi, foi a facilidade chocante com que se dizia mentiras às pessoas, especialmente quando era aquilo que queriam ouvir. Ela não tinha vinte e oito anos, tinha apenas vinte e cinco e, quanto a conhecer a Índia, só lá brincara inocentemente em criança, antes do que tinha acontecido. Conhecia a Índia tão bem como conhecia o outro lado da lua.

 

Pode ler os primeiros capítulos de A Leste do Sol, de Julia Gregson, aqui.



publicado por Rita Mello às 14:24 | link do entrada | comentar | favorito
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2 comentários:
De Laelany a 6 de Setembro de 2009 às 15:37
Olá! :D

Tens dois selinhos à tua espera no meu blog ;)

(http://chmeianoite.blogspot.com/)


De Rita Mello a 7 de Setembro de 2009 às 16:44
Olá Laelany!

Obrigada pelos selinhos


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