Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

 

Quis sempre ser escritora?

Sim, acho que sim, desde que me lembro. Eu estava sempre a escrever alguma coisa quando era nova e continuou sendo assim. Tive também uma excelente professora na primária, chamada Miss Jones, o género de pessoa que veste sempre tweed e sempre muito amável e encorajadora.

 

Onde vai buscar as ideias para as suas histórias?

Inspiro-me sem dúvida nas pessoas (do passado e presente) e na vida à minha volta. Não me interesso muito pela escrita de fantasia e pela criação de mundos alternativos. É mais sobre o que a vida faz às pessoas – a interacção entre personalidades e circunstâncias. E sobre escrever sobre o passado, e o que as pessoas tiveram de suportar.

Geralmente são alguns detalhes históricos que despertam o meu interesse ou um tema mais emocional. Fiquei interessada por pessoas que viviam e trabalhavam nos canais e isso levou-me a escrever The Narrowboat Girl e Water Gypsies. Com um livro mais recente, Where Earth Meets Sky, a história surgiu do meu interesse pelos primeiros carros e pelos mecânicos que acompanhavam os carros a países como a Índia. O meu avô foi uma dessas pessoas – ele foi para a Índia pela primeira vez pela Daimler em 1905. Mas Lily, a protagonista, nasceu no meu pensamento como alguém que foi abandonada e que não sabe quem é em termos de classe e de onde pertence.

 

O que a leva a escrever?

Não tenho a certeza. Doris Lessing afirmou recentemente que escreve porque há algo de terrivelmente errado com ela. Muitos escritores parecem que têm uma compulsão – há algo dentro de nós que nos leva a fazê-lo. É uma forma de nos relacionarmos com o mundo, de dar forma à experiência e ao enorme fascínio que é tudo o que compõe a vida.

 

Como é a sua rotina de escrita?

Durante anos encarei a minha escrita como um emprego. Hoje em dia escrevo a primeira versão de um livro entre Setembro e Março, o que às vezes se assemelha a hibernar. Começo por volta das 9h30 por ler o que escrevi no dia anterior. E parto daí, escrevendo directamente no computador ou regressando ao papel e caneta caso esteja bloqueada. Proponho-me uma média aproximada de palavras que preciso de escrever numa semana de forma a ter o livro pronto. Há dias em que sei que não vou conseguir escrever nada e aí acho melhor parar e fazer outra coisa, como dar um passeio.

E depois há a escrita de “brincadeira”, que é feita com caneta e papel e em todo lado menos numa secretária!

 

Tem algum ritual que a ajude a escrever?

Gosto sempre de começar o trabalho com uma grande chávena de chá na secretária – ajuda a desanuviar, já que começar é sempre o mais difícil. Escrevo num diário quase todos os dias – apenas ou página ou pouco mais – antes de me dedicar à ficção.

Às vezes, quando fico bloqueada fico ensonada e tiro uma sesta de uns quinze minutos. Isso consegue fazer maravilhas em termos de ordenar os pensamentos. Nos últimos tempos tenho também vivido com um enorme cão basset, que se põe sempre no sítio onde eu tenho de estar, por isso batalhar com o Bruno pelo meu espaço também passou a ser um ritual diário.

 

Como pesquisa para os seus livros?

Começo pelo plano geral, o enquadramento histórico e parto daí para os detalhes. Uso tudo o que posso: livros, ouvir pessoas, mapas, fotografias – que são uma grande ajuda –, e às vezes a Internet. Durante a pesquisa as personagens começam também a desenvolver-se, quase como um elenco a sair de detrás da cortina e a pedir-me para os conhecer.

 

Escreve outras coisas?

Já fiz e gostaria de fazer mais, se o tempo permitir. Tenho muitas ideias para outras histórias, tanto para adultos como para crianças, e espero passar algumas para o papel dentro em breve.

 

Que género de livros gosta de ler?

Boas histórias sobre pessoas. Gosto dos livros autobiográficos de Helen Forrester sobre Liverpool, em particular Twopence to Cross the Mersey. O melhor livro que li nos últimos tempos foi A Fine Balance, de Rohinton Mistry, sobre a Índia: assombroso e maravilhoso. Muita da melhor literatura actual é para as crianças, tal como Holes, de Louis Sachar, e Private Peaceful, de Michael Morpurgo.

 

Porque acabou por escrever sobre Birmingham quando não é originalmente daí?

Era onde eu morava e onde todos os meus filhos nasceram. A minha mãe também é das Midlands e trabalhava em Conventry durante o Blitz. Tive um grande sentimento de pertença em Birmingham mal lá fui e é uma cidade muito interessante e variada, a fervilhar de histórias… No início da década de 1990 havia um grande número de livros autobiográficos sobre Birmingham, como os de Kathleen Dayus, e ninguém escrevia histórias ficcionais deste género, por isso achei que era tempo de alguém o fazer…

 

Como consegue conciliar a escrita com quatro crianças (e um cão)?

Bem, as crianças acabam por dormir às vezes e têm de ir para a escola. Os nossos primeiros filhos eram gémeos e costumava escrever histórias enquanto eles dormiam. Um ano depois foram para um infantário um par de manhãs por semana e, por essa altura, já vinha outro bebé a caminho. E por aí adiante… Acho que tenho necessidade de escrever, e a enorme pressão do tempo levou a que simplesmente o fizesse. Não posso fingir que não às vezes não era uma loucura…

 

Do que mais gosta na escrita?

A dádiva de uma ideia que me entusiasma, seguida de outros pensamentos que não param de jorrar. Isso acontece-me frequentemente quando termino um longo projecto de escrita – é como abrir um alçapão que esteve fechado durante muito tempo e as ideias não param de sair. Durante a escrita de um livro é uma sensação muito boa quando escrevemos uma cena que gostamos e quando começamos a ver que tudo pode dar certo.

 

Qual o seu chocolate preferido?

É verdade. Escrevi dois livros sobre a Cadbury – As Meninas dos Chocolates e The Bells of Bournville Green. Espero que sirvam para preservar a memória da empresa antes de ter sido comprada. Não estou a mentir quando digo que o Cadbury’s é o meu chocolate preferido. É o chocolate com que todos nós crescemos e não há nada como uma tablete de Fruit and Nut!

 

Costuma ter encontros com os seus leitores?

É muito agradável ter um feedback dos leitores dos meus livros e poder encontrar-me com eles – especialmente se gostaram deles! Um bom sítio para conhecer pessoas é falar para grupos em livrarias, bibliotecas ou centros comunitários, o que eu faço muitas vezes. Acabo normalmente por ouvir muitas histórias interessantes ou de contá-las eu própria, e as pessoas são sempre amáveis e encorajadoras.



publicado por Rita Mello às 15:17 | link do entrada | comentar | favorito

3 comentários:
De VeraSopa a 8 de Novembro de 2011 às 12:58
Gostei da entrevista e da entrevistada. Fiquei realmente tentada a ler "As meninas dos chocolates".

http://lerprazeradquirido.blogspot.com/


De djamb a 12 de Novembro de 2011 às 08:58
Adorei a entrevista!


De Rita Mello a 14 de Novembro de 2011 às 10:08
Quem bom que gostaram. Os livros dela são mesmo interessantes. Aproveito para informar que para o ano a ASA vai publicar The Bells of Bournville Green, que a autora refere na entrevista.


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