Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Aos quinze anos tive icterícia. A doença começou no Outono e acabou na Primavera. Quanto mais frio e escuro se tornava o ano velho, mais eu enfraquecia. Só melhorei com o novo ano. Janeiro foi um mês quente, e a minha mãe levou-me a cama para a varanda. Via o céu, o sol, as nuvens, e ouvia as crianças a brincarem no pátio. Em Fevereiro, num final de tarde, ouvi cantar um melro.

 

Vivíamos na Rua das Flores, no segundo andar de um grande prédio do começo do século. O meu primeiro passeio levou-me à Rua da Estação. Foi ali que, numa segunda-feira de Outubro, no caminho da escola para casa, vomitei. Havia já muitos dias que me sentia fraco, tão fraco como nunca antes na minha vida. Cada passo era um esforço. Quando subia escadas, na escola ou em casa, quase não me sustinha nas pernas. Também não me apetecia comer. Mesmo quando sentia fome e me sentava à mesa, depressa ficava com repugnância pela comida. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que as minhas vísceras pesavam mais do que o costume e que estavam mal arrumadas dentro do corpo. Envergonhava-me de estar tão fraco. E envergonhei-me sobretudo quando vomitei. Também isso nunca me acontecera na vida. A boca encheu-se de vómito, tentei engolir, apertei os lábios com força e tapei a boca com a mão, mas aquilo jorrou através dos dedos. Depois apoiei-me à parede de uma casa, olhei o vomitado aos meus pés e saiu-me ainda uma aguadilha clara.

 

A mulher que me ajudou fê-lo de uma maneira quase brutal.

 

 

Agarrou-me o braço e conduziu-me pela – escura entrada do prédio para um pátio. Em cima havia estendais com roupas penduradas de janela a janela. No pátio havia madeira empilhada; numa oficina com a porta aberta chiava uma serra e voavam estilhas. Ao lado da porta do pátio havia uma torneira. A mulher abriu-a, lavou-me primeiro a mão e depois recolheu água na concha das mãos e atirou-a para o meu rosto. Enxuguei a cara com o lenço.

 

– Leva o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela agarrou num e encheu-o. Peguei no outro e enchi-o, e depois segui-a pela entrada. A mulher balançou muito os braços, a água caiu de chapa no passeio e arrastou o vomitado para o esgoto. Tirou-me o balde da mão e atirou outra chapada de água sobre o passeio.

Endireitou-se e viu que eu chorava. – Miúdo – disse, surpreendida –, miúdo. – Abraçou-me. Eu era pouco mais alto do que ela, senti os seus seios no meu peito, no aperto do abraço cheirei o meu mau hálito e o suor fresco dela e não soube o que fazer com os braços. Parei de chorar.

 

Perguntou-me onde morava, deixou os baldes na entrada e levou-me a casa. Corria ao meu lado, com a minha pasta da escola numa mão e a outra mão no meu braço. A Rua da Estação não é muito longe da Rua das Flores. Caminhava depressa, e com uma determinação que me tornou mais fácil acompanhá-la. Despediu-se diante da minha casa.

 

Naquele mesmo dia, a minha mãe chamou o médico, que me diagnosticou icterícia. Num momento qualquer falei daquela mulher à minha mãe. Não acredito que de outra maneira a tivesse visitado. Mas para a minha mãe era natural que, logo que eu pudesse, iria comprar com o meu dinheiro um ramo de flores, apresentar-me e agradecer-lhe. Por isso, num dia do final de Fevereiro dirigi-me à Rua da Estação.

 

Continue a ler O Leitor aqui.



publicado por Rita Mello às 11:23 | link do entrada | favorito

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