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CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

05
Mar09

"O MEU RABO PARECE GRANDE NESTAS CALÇAS?" – ENTREVISTA COM ROOPA FAROOKI

Rita Mello

 

Agridoce é sobre o impacto que as mentiras podem ter nas relações familiares. Na sua opinião, uma mentira pode ser positiva?
Às vezes temos de mentir para sermos educados, e é por isso que existe apenas uma resposta aceitável para a pergunta: “O meu rabo parece grande nestas calças?”

 

Pensa que a mentira desempenha um papel preponderante nas culturas dos imigrantes do Paquistão e Bangladesh?
Penso que muitas famílias de imigrantes do Paquistão e do Bangladesh ainda lutam com uma disparidade entre os seus valores orientais e islâmicos e os da sociedade ocidental onde escolheram viver, na medida em que comportamentos tradicionalmente “inaceitáveis” como a homossexualidade, o namoro, a bebida e o jogo não são abertamente aceites pela primeira geração, forçando os membros mais jovens e mais ocidentalizados da família a mentirem. Dito isto, em Agridoce, os conflitos morais das personagens, que os conduzem à mentira, não são resultado de dilemas religiosos ou choques culturais, mas devem-se antes às suas próprias emoções muito pessoais e ambíguas.

 

As suas personagens são representativas das comunidades imigrantes do Paquistão e do Bangladesh?
Vivi em três zonas de Londres com uma grande proporção de imigrantes, Tooting, Bethnal Green e Southwark, e inspirei-me nas pessoas que conheci nesses locais, bem como na minha própria experiência. A confeitaria de Bhai Hassan e o bem-sucedido negócio de restauração de Parvez têm muitos equivalentes reais
em Tooting. No entanto, as minhas personagens são da classe média, não representando a maioria dos imigrantes. Foi recentemente noticiado, em Abril de 2007, que, no Reino Unido, cerca de dois terços dos imigrantes de Bengala ainda vive na pobreza.

 

O romance começa com um casamento arranjado nos anos 50. Este género de casamentos ainda tem lugar? Na sua opinião, são bem-sucedidos?
O casamento arranjado de Henna com Ricky-Rashid foi bastante avançado para os anos 50, uma vez que tiveram a oportunidade de se encontrar algumas vezes antes da cerimónia. Naquela altura não era muito comum, uma vez que todos os arranjos eram feitos entre os chefes das famílias, e os noivos apenas se conheciam no dia do casamento.
Os casamentos arranjados constituíam a norma na geração dos meus avós, e ainda eram muito comuns na geração dos meus pais. Na altura, os meus próprios pais foram considerados pouco convencionais, uma vez que se conheceram no trabalho, casaram por amor e organizaram o casamento deles sem o envolvimento ou a aprovação dos pais. Os casamentos arranjados ainda se realizam actualmente, tanto no Reino Unido como no subcontinente indiano. Os que conheço são um bocado mais modernos, permitindo, desde o início, uma consulta muito maior entre os potenciais noivos e envolvendo vários encontros antes que os noivos concordem
em casar. Em alguns casos, é mais uma “apresentação” do que um arranjo, sendo que é o casal que decide se quer avançar e conhecer-se melhor com vista a um possível casamento. É-me difícil dar uma opinião sobre se um casamento deste género é bem-sucedido ou não, uma vez que, tal como qualquer casamento, fazê-lo funcionar depende da vontade de ambas as partes.

 

Até que ponto é que o seu livro é autobiográfico?
Penso que é muito tentador para muitos autores que começam a escrever pela primeira vez limitarem-se às experiências que conhecem e escreverem contos semiautobiográficos. No meu caso, livrei-me desse desejo com o primeiro manuscrito que escrevi, que terminei um ano antes de me dedicar a Agridoce, mas que não foi publicado. Agridoce é uma obra de ficção, no entanto, usei a minha experiência pessoal no que respeita aos lugares onde se passa a acção; vivi vários anos em Tooting, na zona sudoeste de Londres, onde podemos encontrar uma mistura de imigrantes asiáticos, indianos e irlandeses; tal como Omar, tirei o curso em Oxford, e recordo-me com carinho de todos os locais de Oxford dos meus dias de estudante. No momento em que estava a escrever Agridoce já não ia ao Bangladesh ou ao Paquistão há alguns anos, mas felizmente a minha mãe conseguiu avivar as minhas memórias de infância destes locais através das histórias que me contou. Em relação às minhas personagens, não há nenhuma com quem me identifique em particular, uma vez que eles representam diferentes aspectos de mim mesma ou da pessoa que eu seria se fosse extrovertida e manhosa como Henna ou uma romântica incurável como Ricky-Rashid; tal como muitos autores, ao criá-los, apoiei-me bastante nas minhas experiências de amor e desejo, desespero e culpa, inépcia e aspiração.

 

Como é que a comunidade asiática reagiu a Agridoce?
Tive reacções muito positivas ao livro; algumas pessoas disseram que era reconfortante deparar com um romance que retrata os bangladechianos modernos de uma forma positiva, em vez de os retratar como vítimas pobres arrastadas das suas aldeias para a sordidez urbana. Henna é um tipo de dona de casa de Bengala muito diferente do que estamos habituados a ver no Ocidente, pois é extrovertida, uma manipuladora convicta, cosmopolita e elegante. No entanto, fui também criticada por alguns quadrantes por não ter sido suficientemente “política” e não ter representado o choque entre as culturas ocidentais e orientais como uma força motriz do romance. Foi uma escolha deliberada. Tive a sorte de pertencer a uma geração sem complexos de inferioridade em relação às suas origens; é simplesmente o que sou. Do mesmo modo, apesar das minhas personagens serem asiáticas, a minha preocupação não foi a de explorar temas relacionados com a sua condição de asiáticos, mas com as profundas motivações psicológicas e emocionais que não estão relacionadas com a raça. As minhas personagens são universais, uma vez que estou muito mais interessada no que está por debaixo da pele.

 

Quais são as suas origens?
Tal como os irmãos gémeos do romance, o meu pai era paquistanês e a minha mãe era do Bangladesh. Nasci em 1974, no Paquistão, mas a minha família mudou-se para Londres quando tinha sete meses. Aos dezasseis anos tinha dupla nacionalidade paquistanesa e britânica. A minha família foi sempre muito internacional e muito descontraída em relação à nossa fé muçulmana; quando os meus pais se separaram o meu pai casou com uma católica sino-americana e o companheiro de longa data da minha mãe é um judeu anglo-iraquiano. As minhas irmãs e eu fomos criadas num ambiente liberal onde podíamos namorar e beber sem censura, mantendo na mesma a nossa identidade muçulmana. Não houve qualquer censura na nossa grande família quando casei com o meu marido anglo-irlandês numa cerimónia civil (eu vesti um sari, ele um fato), apesar da minha tia ter ficado perplexa alguns anos mais tarde quando lhe expliquei que tinha deixado o meu marido a tomar conta do bebé: “Mas ele é um homem! Tens a certeza de que é capaz?”

 

Quando é que se apercebeu de que queria ser escritora?
Eu sempre quis ser escritora, e escrevia contos e poemas para mim quando era criança. Cheguei a escrever um romance de ficção científica quando tinha quinze anos, o qual enviei cheia de esperança a todas as editoras da cidade. Não imaginava que pudesse construir uma carreira a escrever, e por isso tirei um curso de Contabilidade e depois outro de Publicidade. Foi só em 2003, quando o meu primeiro manuscrito a sério atraiu algum interesse da parte de uma editora muito conhecida, que decidi fazer uma pausa no trabalho para me dedicar à escrita a tempo inteiro. Abandonei o meu emprego como directora de contas numa agência de publicidade, em 2004, e tive a sorte de assinar um contrato para dois livros um ano mais tarde ao terminar Agridoce. Este é o trabalho que sempre sonhei, pois escrever é algo que faço por prazer, apesar de dois filhos desde 2005, já escrevi o meu segundo romance, e estou agora a iniciar as pesquisas para o terceiro.

 

(Entrevista de Roopa Farooki à editora Pan MacMillan)

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