Quarta-feira, 25 de Março de 2009

 

A última vez que vi o meu pai foi em Paris, em 2002, num dia gelado de Dezembro, algumas semanas antes de morrer. Era onde o encontrava mais vezes, já que estava proibido de entrar no Reino Unido desde a minha adolescência; o seu cadastro impedia-o de pedir um visto. Por esta altura, ele também já tinha arranjado maneira de ser impedido de entrar nos Estados Unidos; já não via a mulher há meses – ela estava a tomar conta da mãe, que sofria de uma doença terminal, e não podia viajar, mas ele também não se mostrava preocupado com isso. Já ia na casa dos setenta, e o seu estilo de vida caótico repercutira-se na sua diabetes e no seu triplamente atacado coração e já sujeito a um by-pass, mas tinha até agora recusado se submeter-se a tratamentos médicos no Paquistão, onde os seus irmãos mais novos podiam tomar conta dele. Apesar de tudo, ele não podia jogar no Paquistão com a liberdade com que o fazia em França.

 

Eu tinha ido a um dos subúrbios cinzentos de Paris para uma reunião (na altura, trabalhava em publicidade), e sabendo que o meu pai estava em convalescença e a jogar em Deauville depois de mais um ataque cardíaco, consegui marcar um encontro com ele na estação de comboios. Ele disse-me ao telefone que tinha finalmente decidido regressar ao Paquistão para ser tratado, e eu sugeri-lhe que nos encontrássemos e partilhássemos um táxi até ao aeroporto. Ele estava terrivelmente magro e fraco, mas ainda cheio de entusiasmo, enumerando alegremente os nomes de pessoas mais jovens e saudáveis que ele conhecia e a quem ele já sobrevivera. “Toda a gente diz que estou a morrer, mas eu ainda não estou morto!”, exclamava exuberantemente.

 

Sentámo-nos num bar e estivemos a ver fotos do meu casamento que ocorrera naquele Verão, ao qual ele não pôde ir, e falámos da autobiografia que estava a escrever – All Gamblers Great and Small –, que ele afirmava ter com ele num CD. Quando acabei de tomar o meu kir, já ele tinha acabado de tomar o café, e perguntei-lhe se estava pronto para ir para o aeroporto. “Acho que vou amanhã”, disse num tom despreocupado, e eu percebi logo que pretendia adiar o amanhã até os seus fundos acabarem. Pediu algumas centenas de libras para pagar uma despesa médica. (Depois de me ignorar a mim a às minhas irmãs durante anos, agora que tínhamos meios próprios, ele renovou o seu interesse por nós.) “Claro”, disse, mas ao lembrar-me de como uma das minhas irmãs lhe fizera recentemente uma transferência de mil libras, pedi-lhe a conta médica, para poder pagar directamente ao hospital. Ele lançou-me um olhar irritado, como se eu tivesse estragado a brincadeira.

 

É claro que havia despesas médicas para serem pagas, mas ele não as ia pagar, não enquanto o casino local ainda tivesse uma mesa de blackjack. Ele faleceu num hotel em Deauville passadas duas semanas, por isso, eu e a minha irmã mais velha fomos para Paris e acabámos por levá-lo ao aeroporto. A sua pequena mala tinha sido feita com um compacto guarda-roupa constituído por diversos fatos e camisolas cuidadosamente dobrados, primeiras edições dos seus romances e as fotos do casamento, que eu lhe dera quinze dias antes. Não havia sinais da sua autobiografia; a mala tinha um CD, que estava vazio. O funeral teve lugar no Paquistão.

 

Todos os obituários declaram que morreu de forma romântica em Paris, uma última inverdade que o meu pai ficaria contente por saber. “Quem é que quer morrer em casa, rodeado da família e amigos?”, troçava frequentemente. “É tão burguês! Prefiro cair morto nas ruas de Paris.” Os obituários deram várias versões da sua vida carregadas de informações erradas e meias verdades.

 

E curiosamente, o meu instinto, quando interrogado sobre a razão pela qual escrevera um romance sobre uma família que pratica o engano cúmplice, não foi dizer a verdade, mas dizer outra coisa qualquer. Não por a verdade ser desconfortável e embaraçosa, ou por eu ter pensado que era mais confortável esconder a verdade com uma mentira bem-intencionada. O meu principal receio era de que se dissesse que o comportamento do meu pai me tinha levado a explorar esse tema, poderia soar que aprovava a vida que este homem teimoso levou ou que quisesse continuar o seu legado e deixá-lo levar a sua avante. Ele raramente, ou até mesmo nunca, respondeu pelo que fez e não era correcto dar-lhe mais mérito agora. É que, afinal de contas, ele era um jogador compulsivo, um condenado por crimes de colarinho-branco, abandonou mulher e filhos, um homem que prestava tanto quanto a sua palavra e que viveu e morreu alegremente para além das suas posses. Mas quem o conheceu nunca disse outra coisa a não ser que era inteligente e charmoso, e, apesar de todos os seus defeitos, ele certamente nunca foi monótono. Eu sei que estou a dizer isso com uma espécie de sentimento de orgulho. Talvez ele tenha mesmo levado a sua avante.



publicado por Rita Mello às 17:11 | link do entrada | favorito

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