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CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

03
Abr09

LEIA OS PRIMEIROS CAPÍTULOS DE RAZÕES DO CORAÇÃO

Rita Mello

 

Sozinha numa carruagem de primeira classe, Lisette, empertigou-se no momento em que se aproximavam da familiar Victoria Station. Regressava a Londres após mais uma viagem a França. Quase a completar quarenta anos de idade, a estrutura óssea do seu rosto, bela e delicada, conservaria a sua beleza até ao fim dos seus dias. A boca de lábios carnudos nunca fora uma desvantagem para ela, ainda que fora de moda numa altura em que seria de esperar em qualquer deusa do ecrã de cinema uns lábios bem mais delicados. Aprumada, sofisticada e, graças à sua capacidade de representação, capaz de esconder os seus sentimentos mais recônditos, nada na sua expressão revelava o sofrimento que sentia naquele momento.

Quando o comboio parou, levantou-se, respirou fundo, e reuniu todas as suas forças a fim de se preparar para o que a esperava. Um carregador avançou apressadamente, empurrando um carrinho.

– Bagagem, minha senhora?

Ela abanou a cabeça.

– Não, obrigada. Não trago nada.

Com casa tanto em Inglaterra como em França, não tinha necessidade de transportar nada com ela, a não ser quando fazia compras em Paris e trazia roupa das lojas de Paquin ou Worth, os seus dois costureiros favoritos. Desta vez, depois do telegrama urgente que recebera, não adiara a viagem por um dia sequer; mesmo assim, receava já ter chegado tarde de mais para poder fazer alguma coisa em relação à terrível crise que surgira.

Era um final de tarde quente de Junho, e ainda não escurecera, pois o sol não desaparecera completamente por detrás dos telhados e das cúpulas da cidade. Uma vez que a sua chegada não era esperada, não havia ninguém na estação para a receber. Lisette dirigiu-se sozinha para a fila de espera dos táxis. Ao caminhar, sentiu que lhe eram dirigidos os habituais olhares furtivos mas incisivos, despertados pela sua elegância parisiense, pois os fatos daquele Verão de 1914, embora ainda pelos tornozelos, tinham um novo corte, mais esguio, que favorecia a sua figura esbelta. Tal como a saia, o casaco cintado era de veludo de seda cor de creme e, elegantemente colocado sobre a sua bela cabeleira loura, o chapéu era debruado com fitas e adornado com uma única rosa amarela. Nesse dia, como acontecia frequentemente, alguns olhares de reconhecimento surpreendido voltaram-se na sua direcção, mas ela não reparou neles enquanto caminhava apressadamente.

Dentro do táxi, reclinou-se e fechou os olhos, voltando a temer o problema que teria de enfrentar. Tudo quanto sabia era que lutaria contra o que quer que fosse. No entanto, sentia-se tão confusa, vulnerável e desesperada como se tivesse novamente onze anos de idade, altura em que o mundo se estilhaçara à sua volta por uma razão completamente diferente. Conseguia ainda visualizar tudo o que acontecera nessa altura tão nitidamente como se tivesse sido ontem, porque nessa mesma manhã deixara para trás aquele local da sua infância, em Lyon.

 

Continue a ler Razões do Coração aqui.

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