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CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

01
Jun09

"A QUEDA DO AMOR NUMA CASCATA DE MISTÉRIOS" – A CRÍTICA DO JORNAL DE NEGÓCIOS A UM VERÃO EM SIENA

Rita Mello

A bela Tuscânia é o palco de uma novela sobre o fim da inocência de uma jovem

Esther Freud é uma mestre das duplicidades. Esqueçamos, por momentos, que é bisneta de Sigmund Freud e filha do pintor Lucien Freud. Mas basta olharmos para o título: Love Falls no original (o português é um inexpressivo Um Verão em Siena, Tem tudo a ver com uma queda de água na Tuscânia que os personagens visitam, para um picnic: La Cascata Dell’Amore. É o amor, ou o pretenso amor, que está sempre presente aqui, como pano de fundo: estamos em 1981 e este é o Verão de Londres. Afinal Carlos e Diana vão casar. Um idílio feito no céu. Mas Lara Riley, uma jovem de 17 anos, segue com o seu pai, num comboio, para a Tuscânia. Aí percebemos que o seu pai, o historiador Lambert Gold, que ela conhece muito mal, é um emigrante que mudou o seu nome de Wolfgang para Lambert. Wolf (lobo) e Lamb (cordeiro): sinais de uma mudança de aparência? É nestes pequenos pormenores que se nota a qualidade da escrita de Esther Freud e o delicioso mundo deste livro.

Lara vai crescendo ao longo da história, e a sua relação com o pai vai evoluindo, num universo que só aparentemente é italiano: Lara e Lambert estão na villa de Caroline (uma velha amiga de Lambert), que tem uma doença terminal, e conhecem os vizinhos, uma aristocrática família britânica, os Willoughby. Eles são de uma decadência atroz: cada um dos seus membros apenas se preocupa consigo próprio. Ali Lara é seduzida por Kip, o jovem herdeiro da família e violada por um elemento mais velho dos Willoughby.

Mas por detrás deste mundo nebuloso, onde a imaturidade e inocência de Lara é posta à prova, a verdadeira história de amor aqui é entre Lara e o pai. Até porque ela vai, em páginas de descrições delicadas e atraentes, conhecendo melhor Lambert, que deixara a sua mãe (um budista hippie), quando ela era muito nova. É a pouco e pouco que Lara se vai apercebendo também que ela é que é o cordeiro (a lamb) no meio de lobos, enquanto vai, com a sua curiosidade adolescente, conhecendo novas sensações: das físicas, às do sol e dos aromas da comida ou mesmo à beleza das pinturas da catedral de Siena. Mas ela continua, ao longo de quase todo o livro, sem se aperceber das conexões sexuais da família Willoughby e dos seus segredos mais bem guardados. A que nem Lambert acaba por escapar.

É esta teia que Esther Freud descreve de forma brilhante. Há, de resto, um episódio crucial na história: quando Kip deixa cair um ovo no chão espera que alguém o limpe. É aí que nos podemos aperceber de um mundo que pensamos não existir e que, na realidade, está sempre presente neste livro e, talvez, nesta sociedade. A amoralidade dos Willoughby é um espelho do mundo paralelo ao nosso.

É aí que regressamos a Sigmund Freud: o amor e a morte estão sempre interligados nesta história. Mas é Lara que acaba por ser a personagem mais interessante e intrigante, na sua inocência e na aprendizagem rápida que vai fazendo dos interesses dos mais velhos, nesta história pautada pelo sol da Tuscânia. Mas onde a presença britânica (e, às vezes, estamos a pensar em Brideshead Revisited de Evelyn Waugh) é hegemónica. Um livro estimulante.

Artigo da autoria de Fernando Sobral, publicado no suplemento Weekend, do Jornal de Negócios, no dia 29 de Maio.

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