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CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

20
Jul09

LEIA A PRIMEIRA PARTE DE CONFISSÕES AO LUAR

Rita Mello

Ela foi a sua primeira esposa mas, quando a viu pela primeira vez, não passava de uma jovem de dezassete anos chamada Arlyn Singer, de pé no alpendre à frente da casa, numa noite que pareceu suspensa no tempo. O pai de Arlyn falecera há pouco e o jantar após o funeral terminara poucas horas antes. Fora uma reunião triste: uma dúzia de vizinhos, sentados à volta da pesada mesa de mogno da sala de jantar, que ninguém usava há mais de uma década. Agora havia panelas de macarrão com queijo, um bolo de morango e uma travessa enorme com fruta; comida suficiente para um mês, caso Arlie tivesse algum apetite.

O pai de Arlyn tinha sido capitão de um ferryboat e o centro do mundo dela, em especial nos últimos anos; o capitão brilhara mais depois de preso nas garras da doença, tal como uma estrela cadente na escuridão. Antes um homem habitualmente calado, começara a contar histórias. Histórias de rochedos que apareciam na escuridão, de recifes misteriosos cujo único objectivo parecia ser afundar os ferries, de homens afogados que ele conhecera e que nunca tinham voltado. Com um lápis vermelho, desenhara-lhe mapas das estrelas que podiam conduzir um homem perdido até casa. Falou-lhe de uma tribo que vivia do outro lado da água, no distante Connecticut, que era capaz de fazer crescer asas quando confrontada com um desastre. Pareciam pessoas normais até o navio se afundar, ou o incêndio começar a alastrar, e, depois, de repente, revelavam-se. Só então conseguiam escapar.

Na sua mesa-de-cabeceira havia uma colecção de pedras que o capitão dizia ter engolido quando era jovem; afundara-se com um navio e fora o único sobrevivente. Num minuto estava de pé na coberta, no minuto seguinte estava por cima de tudo, no céu. Caíra depressa e com força sobre as águas do Connecticut, com a boca e a barriga cheias de pedras.

Quando o médico veio revelar ao capitão que não havia esperança, tomaram uma bebida juntos e, em vez de gelo, o capitão colocou uma pedra nos copos de whisky.

– Vai trazer-lhe boa sorte – dissera ao médico. – Tudo o que eu quero é que a minha filha seja feliz. É toda a sorte de que preciso.

Arlyn soluçara à cabeceira do pai e implorara-lhe que não a deixasse, mas isso não era uma opção nem uma escolha. O último conselho que o capitão lhe dera, enquanto ainda tinha voz, fora que o futuro era um território desconhecido e inesperado e que Arlyn devia estar preparada para quase tudo. Enquanto o pai definhava ficara arrasada pela dor, mas agora sentia-se desprovida de peso, como as pessoas se sentem quando já não têm a certeza de ainda terem alguma razão para se manterem presas a este mundo. A mais leve brisa poderia tê-la arrastado para o céu da noite, através do universo.

Arlyn agarrou-se ao corrimão do alpendre e inclinou-se sobre as azáleas. Flores vermelhas e cor-de-rosa, cheias de botões. Arlyn era uma optimista, apesar da sua actual situação. Era suficientemente jovem para ver o copo, não como meio cheio ou meio vazio, mas como um belo objecto que podia conter qualquer coisa. Murmurou uma promessa, como se o facto de a murmurar pudesse torná-la realidade.

O primeiro homem que descer esta rua será o meu único amor e eu ser-lhe-ei fiel enquanto ele me for fiel.

Girou duas vezes sobre si própria e susteve a respiração como forma de selar o acordo. Trazia o seu calçado preferido, que o pai lhe tinha comprado no Connecticut, sapatinhos de pele tão leves que era quase como se estivesse descalça. O cabelo ruivo dava-lhe pela cintura. Tinha setenta e quatro sardas no rosto – contara-as – e um nariz comprido e direito que o pai lhe garantira ser elegante, não grande. Viu o céu escurecer. Havia uma linha de cinzas lá emcima, bocadinhos de fuligem da chaminé. Talvez o pai estivesse lá no alto, a olhar por ela. Talvez estivesse a bater no caixão, a suplicar que o deixassem sair. Ou talvez ainda aqui estivesse com ela, no seu coração, fazendo com que lhe custasse respirar sempre que pensava na vida sem ele. Arlie sentia a solidão dentro de si mas também estava esperançosa. O passado era o passado. Agora era feita de vidro, transparente e claro. Era um instante no tempo. Uma noite húmida, duas estrelas no céu, uma linha de fuligem, um grupo de vizinhos conversadores, que mal a conheciam, na sala de jantar. Ela convencera-se de que o seu futuro chegaria pela rua onde vivera toda a sua vida, se esperasse o tempo suficiente. Se confiasse no destino.

 

Continue a ler Confissões ao Luar, de Alice Hoffman, aqui.

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