Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

 

A Leste do Sol é sobre três mulheres e os seus pontos de vista distintos. Como lhe ocorreu contar a história destas mulheres? Baseou-se em mulheres reais?

Sempre fui fascinada pela Índia. Quando era criança, a minha família arrendava o andar de cima de uma grande e gelada casa de campo no Hampshire que pertencia a uma mulher chamada Mrs. Smith-Pearse. Ela tinha ido para a Índia aos dezoito anos, fazendo parte da Frota Pesqueira [nome que era dado às mulheres enviadas para a Índia para casar com oficiais britânicos], casara, vivera lá durante cerca de trinta anos e tinha regressado recentemente a Inglaterra. Eu tinha cinco anos quando nos conhecemos; ela sessenta. Eu adorava tudo nela: os tweeds gastos, as gargalhadas que pareciam grasnidos, as histórias maravilhosas sobre cobras na casa de banho, caçadas a tigres com marajás, viagens de três dias em póneis até Simla. Eu seguia-a como uma sombra e, às vezes, ela deixava-me vestir pequenos saris de seda, túnicas que cheiravam a especiarias e salwar kameeze que saíam magicamente do baú madrepérola dela.

A minha outra influência foi Violet, a mãe do meu marido, mais uma que pertenceu à Frota Pesqueira, e que adorou a Índia, tendo ficado com saudades para sempre. Estas mulheres incendiaram a minha imaginação, mas nenhuma das minhas personagens em A Leste do Sol é fielmente baseada nelas. O meu objectivo foi dar vida a três jovens mulheres bastante diferentes e imaginar o terror e a excitação que sentiam ao serem enviadas para o outro lado do mundo, muitas vezes sem irem acompanhadas, para encontrar maridos. Queria mostrar a velocidade louca com que algumas delas casavam, pensar na humilhação quando falhavam e tinham de ser enviadas de volta. Enquanto mercado para casamentos, o sistema deixava muito a desejar.

 

Rose e Tor chegaram à Índia com tudo o que precisavam para festas e eventos sociais, mas com poucas informações práticas. Construir casamentos e vidas deve ter sido difícil, especialmente num território pouco familiar. Baseada na sua pesquisa, quais eram os maiores desafios com que as mulheres se deparavam ao chegar à Índia? Como ultrapassavam os obstáculos?

Para as jovens, o desafio imediato – poucas vezes tornado público ou reconhecido – era arranjar um homem. Para isso, era preciso conhecer as pessoas certas, ir a festas e a jogos de pólo, encaixar num grupo de pessoas bastante reduzido, fechado e muitas vezes assustado. Muita diversão à superfície, mas as regras eram claras: tinham de se submeter, ter boa aparência, vestir-se bem e não dizer nada que pudesse assustar os “cavalos”. Sabichonas e excêntricas não eram toleradas. A própria Índia constituía outro desafio. Para algumas mulheres foi amor à primeira vista, enquanto outras odiaram-na: os cheiros, a pobreza, o calor, a sensação de se ter sido desligada da Europa.

O casamento trouxe um novo conjunto de problemas e a consciência de que a Índia que podia trazer tantas alegrias também reclamava a sua parte. Mrs. Smith-Pearse, a minha heroína de infância, falava da agonia de enviar crianças para Inglaterra para serem educadas.

“Era a decisão mais difícil de todas: marido ou filho.”

Apaixonada pela enfermagem – tinha servido com distinção em França, em 1917 –, ela apenas era autorizada a ter algumas clínicas em aldeias, na Índia. As pessoas franziam o sobrolho a memsahibs [nome dado na Índia a senhoras europeias] que trabalhavam.

Outras mulheres do Raj contaram-me histórias de partos que correram mal, do enterro de crianças, de moscas e do calor e de cobras, de maridos alcoólicos ou que fugiram. Tudo isto fez com que, em A Leste do Sol, estivesse determinada a não construir as minhas personagens femininas como caricaturas de mensahibssnobs preconceituosas. Algumas eram mulheres maravilhosas; outras mereciam o nosso desprezo, mas a maioria não.

 

As suas descrições das cidades indianas e das viagens de comboio são vívidas e autênticas. Viajou para todos os lugares que descreve?

Estive no Bangladesh como correspondente depois da guerra de 1973 para fazer uma série de histórias sobre orfanatos e para entrevistar mulheres que tinham sido violadas depois da guerra. A minha descrição do orfanato em Tamarind Street baseia-se nessas experiências.

Regressei à Índia duas vezes enquanto escrevia o livro: uma vez fui para o Rajasthan e Simla com o meu marido e a minha filha, e outra fui sozinha para Bombaim. Adoro este tipo de viagens, com as antenas de fora. Fui a Poona ver os campos de pólo, as casas abandonadas onde os britânicos moravam e ao hospital militar onde o meu marido nasceu.

 

A Índia que descreve estava a atravessar um momento decisivo da sua História, e a história tem como pano de fundo a agitação e ressentimento contra os britânicos. Foi difícil captar a intimidade das vidas destas mulheres enquadrando-a nos acontecimentos históricos?

Pensei muito nisso. Passei meses a ler sobre a História da Índia da altura e depois (que desespero!) tive de descartar a maior parte da minha pesquisa, pois as minhas raparigas eram muito novas na altura e quase completamente alheias às grandes mudanças à volta delas. Para serem autênticas, os acontecimentos históricos tinham de ser encarados de relance – um olhar repentino e de ódio por parte de um nativo; uma manifestação inoportuna à ida para uma festa; um chato no clube que não pára de falar da agitação. Teria sido forçado pô-las a discutir política com maior profundidade ou compreensão.

 

O que aconteceu ao género de mulheres que retrata com a mudança das relações entre a Índia e a Grã-Bretanha? As mulheres que faziam parte da Frota Pesqueira conseguiram manter o mesmo estilo de vida?

À meia-noite, no dia 15 de Agosto de 1947, a Índia tornou-se numa nação independente. Apesar de muitos membros do Raj terem começado a ver as inscrições nas paredes durante os anos 30 e 40, para outros terem de se ir embora foi um choque terrível. Muitos deles viviam acima das suas posses na Índia; uma vida luxuosa impossível de reproduzir no Reino Unido com as suas baixas pensões e sem criados. Alguns foram para Espanha, atraídos pelo clima mais agradável e menor custo de vida; outros tinham de fazer pela vida numa Inglaterra desgastada pela guerra e a sofrer o Inverno mais duro do século.

 

A maior parte das relações maternais no romance é distante e ausente e há pouca comunicação entre gerações. Isto era a norma ou era uma escolha consciente para as mulheres da altura? Olhando para trás, que impacto pensa que isso teve nas mães e nos filhos?

Quando as crianças chegavam aos cinco ou seis anos era a norma enviá-las para colégios internos em Inglaterra. Muitos pais, que também tinham sido enviados para Inglaterra quando eram novos, acreditavam que se os filhos ficassem na Índia podiam apanhar alguma doença perigosa, ou serem estragados de mimos pelas amas, ou falarem com sotaque indiano.

Este sistema, apesar de aceite, causou uma grande dose de sofrimento dos dois lados. Os colégios internos eram sítios bastante duros: os rapazes eram espancados, os quartos não tinham aquecimento e as férias, passadas com familiares ou amigos, desprovidas de alegria e complicadas.

Após anos de separação, as relações entre pais e filhos eram muitas vezes fracturadas, formais e distantes. Um dos poucos aspectos positivos era que este sistema fazia com que as crianças fossem muitas vezes auto-suficientes e que, ocasionalmente, quem não gostasse dos pais encontrava um familiar com quem ficar em Inglaterra.

 

Daisy Barker, Viva e as mulheres empreendedoras como elas constituem um contraste surpreendente em relação à alta sociedade. Era comum ver mulheres a ensinar e a serem independentes? Pode falar-nos mais sobre as mulheres indianas da altura, como as vizinhas de Viva, que escolhiam a educação e uma via mais liberal?

Mulheres como Daisy Barker, Viva e outras, que foram como trabalhadoras sociais, professoras, amas e secretárias, constituíam a minoria na Índia em 1928. A maior parte das mulheres da classe média inglesa da altura não tinha nenhuma carreira, nem qualificações profissionais, nem ido para a universidade.

Uma mulher pôs-me as coisas nestes termos: “Não tínhamos chaves, querida: não tínhamos chaves de casa, nem um carro, nem uma educação.”

Quanto às mulheres indianas da altura, apesar de muitas serem iletradas, em cidades cosmopolitas como Bombaim, entre as classes altas, crescia um pequeno mas determinado grupo feminista, e mulheres como as minhas personagens Dolly e Kaniz começavam a ser educadas como professoras, advogadas e trabalhadoras sociais.

 

O romance oferece um retrato maravilhoso da amizade feminina e de como ela nos pode amparar. Foi importante para si mostrar o poder da amizade na vida das mulheres? Porque acha que este tópico, apesar de não ser novo, apela tanto aos leitores?

Enquanto escrevia este livro e ligava todas as pontas soltas, tive um momento de revelação sobre o que é a amizade. Pensei no quanto precisamos dos nossos amigos, não apenas para a diversão ou para os dias difíceis, mas também para nos verem como realmente somos e compreenderem os nossos sonhos. Há amigos que nos encorajam e nos pressionam para avançarmos de uma etapa para a outra nas nossas vidas. E, é claro, quando estamos na Índia, a milhares de quilómetros de casa e da família, os amigos são ainda mais importantes.

 

Qual é o seu método de escrita? Quanto tempo demorou a escrever este romance?

Demorei dois anos e meio a escrever este romance, mas também dava aulas ao mesmo tempo e escrevia contos para poder ganhar dinheiro.

Eu e o meu marido vivemos no campo, em Gales, numa quinta muito antiga junto a um riacho. Temos um cavalo e dois cães, e, estranhamente, todos eles fazem parte do processo de escrita. Muitas vezes, é quando estou a passear junto ao riacho ou a andar no meu velho cavalo galês que a minha mente fica liberta de listas de compras e planos e eu sinto que consigo expressar melhor aquilo que quero dizer. Por muito que eu goste da ideia de uma musa inspiradora, a verdade é que é famosa por não se poder fiar nela. Temos de ser persistentes e aparecer todas as manhãs no estúdio e andar para a frente com as coisas. Em dias maus, sinto que, para citar Graham Greene, “estou a fazer nada mal”. Em dias bons, sinto-me afortunada por fazer um trabalho que adoro e poder viver disso.

 

(Entrevista de Julia Gregson à editora Simon & Schuster)



publicado por Rita Mello às 14:47 | link do entrada | favorito

De Ana a 28 de Setembro de 2009 às 12:43
Olá!

Tenho uma surpresa para ti no meu blog.

Beijinhos!!!!


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