Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

 

 

– É em dias como este que eu fico mesmo farta deste trabalho – resmungou Hannah Durman, enquanto desligava impetuosamente a chamada, antes de empurrar a cadeira para trás e levantar-se. – Tenho estes processos todos para redigir antes de poder ir para casa, e aparece sempre a inevitável emergência do final do dia e não me apetece mesmo nada tratar destas tretas neste momento. Detesto o trabalho de assistente social! Quero um emprego sem stress.

– A quem o dizes! – O seu colega Barry riu-se e deu uma palmadinha na periclitante pilha de processos que tinha na sua própria secretária. – Todos os dias, dê lá por onde der, a fila engrossa, o pessoal diminui e o monte de processos aumenta… mas, pelo menos, nunca te podes queixar de tédio.

Hannah agarrou numa agenda bojuda e num bloco de notas que tinha em cima da secretária. – Na verdade, por vezes seria bom que fosse entediante. Principalmente hoje, que eu nem sequer devia cá estar. Temos de ir para o aeroporto amanhã às cinco da manhã, e eu ainda nem fiz as malas… – Fez uma pausa e lançou um sorriso suplicante na direcção de Barry. – Por acaso não quererás ir lá fora ter uma conversa com a jovem Cleo Riley, não? Ela está na recepção. É o problema do costume: a mãe pô-la outra vez fora de casa. Decerto ela poderá ir para o acolhimento temporário de emergência, eles recebem-na sempre quando têm espaço, é só fazer um ou dois telefonemas…

– Nem pensar. – O colega abanou a cabeça de forma enfática. – Não, não, não. Ainda tenho três visitas domiciliárias para fazer esta tarde. Vai lá despachar isso e depois já podes partir para as tuas férias e esquecer-te de nós todos, aqui a dar o litro como formigas obreiras!

Hannah encolheu os ombros e riu-se, aceitando a recusa com naturalidade.

– Como é que eu sabia que ias dizer isso? Mesmo assim, valeu a pena tentar!

Saiu apressadamente do gabinete acanhado que partilhava com Barry e com vários armários de arquivo altos e entrou num corredor comprido que ia dar ao sombrio gabinete da recepção, onde os funcionários estavam protegidos da sala de espera por um balcão de vidro reforçado. A linha da frente.

O edifício cinzento que albergava os escritórios dos Serviços Sociais da zona oriental de Londres era um bloco impessoal de quatro pisos feito em cimento e vidro, que, nos anos sessenta, altura em que fora construído, teria sido considerado vanguardista e ultramoderno. Agora parecia antiquado e gasto, com graffiti a cobrir quase todas as superfícies sólidas exteriores, beatas e pastilhas elásticas ressequidas espalhadas pela entrada e parque de estacionamento e uma palpável atmosfera de degradação constante em todo o lado, tanto no interior como no exterior.

Hannah sentia-se constantemente aliviada por já não viver na zona oriental de Londres onde crescera, mas quando lhe ofereceram um emprego ali, poucos meses antes, tomara a decisão de regressar. Significara uma promoção, um grande aumento salarial e a oportunidade de trabalhar em horário flexível, de modo que, três dias por semana, saía da pacata vila do Essex onde ela e o marido viviam há mais de dez anos. Nos outros dois dias, trabalhava a partir do conforto da sua própria casa. Convinha-lhe na perfeição.

Semicerrando os olhos, examinou a sala de espera, que estava tão atafulhada e ruidosa como ela previra. As tardes de sexta-feira e as manhãs de segunda eram sempre conturbadas nos escritórios da High Street, e aquela tarde de sexta-feira em particular não era certamente excepção. Não havia cadeiras suficientes para a quantidade de pessoas que aguardavam, por isso estas limitavam-se a deambular por ali, de um lado para o outro, barafustando no corredor cada vez mais zangadas por terem de esperar tanto tempo. Crianças de todas as idades, entediadas pelo ambiente e sem interesse nos poucos livros estraçalhados e revistas rasgadas espalhados sobre a mesa, corriam à vontade, sem vigilância, a fazer barulho, a gritar e a criar o caos.

Sobrepondo-se ao zunzum geral do tédio e da irritação, Hannah gritou por uma brecha no vidro da recepção para se fazer ouvir.

– Cleo? Cleo! Dirige-te à sala de entrevista número dois, já lá vou ter contigo…

Quando a adolescente se levantou de um salto e abriu caminho em direcção ao corredor, uma voz feminina ergueu-se sobre todas as outras, ruidosa e estridente.

– Ei! Isso é injusto! Eu cheguei muito antes dela. Estou à espera há mais de duas horas, porra, e quero que alguém me atenda agora. Já! Senão vou mesmo passar-me dos carretos. Nós aqui não somos porcos numa pocilga, sabe? Somos seres humanos, todos nós…

Hannah já tinha virado costas, mas algo de familiar naquela voz e entoação fê-la parar. Achou que a tinha reconhecido. Estava certa disso. Mas em vez de se virar para olhar, o instinto fê-la dirigir-se para o extremo mais distante do balcão e posicionar-se ao lado de um armário, que lhe permitia ver as pessoas na sala de espera, mas de onde dificilmente seria vista.

A multidão à espera, parte dela com medo de um confronto e outra parte desejando que este acontecesse, aquietara-se e apartara-se ligeiramente, deixando a mulher que falara alto numa pose agressiva no meio da sala, de mãos nas ancas, lançando olhares furiosos e venenosos através do vidro.

Era baixinha, provavelmente a roçar apenas o metro e meio, e escanzeladamente magra, com um rabo-de-cavalo cor de palha enfiado pela parte de trás do boné de baseball e várias argolas de ouro em cada orelha. Tinha outra na sobrancelha esquerda, e um enorme piercing no lábio inferior. Calças de ganga deslavadas e demasiado justas cobriam-lhe as ancas esqueléticas e mostravam a estatutária faixa de pele nua à volta da cintura. Toda a sua imagem era de arrogância juvenil, acompanhada de um ostentoso desafio à autoridade.

À primeira vista, parecia uma adolescente voluntariosa com um ataque de mau feitio, mas quando Hannah semicerrou os olhos e olhou com mais atenção, viu que o rosto anguloso de feições finas semiescondido pela pala do boné era pálido e entrava em contradição com a juvenil postura corporal. O seu rosto revelava ter uns bons vinte anos a mais do que parecia inicialmente.

Irada, olhou em redor da sala em busca de apoio, e Hannah conseguiu sentir a raiva e frustração da mulher a fervilhar quase à flor da pele. Estava nos limites do seu autocontrolo e a qualquer momento poderia perder as estribeiras e atacar alguém; fosse quem fosse. Hannah sabia bem de mais que aquele nível de raiva e frustração podia ser contagioso.

– Acho que é melhor chamares a segurança, Pat, só para impor respeito, para que haja ali alguém se as coisas derem para o torto. – Da sua recolhida posição privilegiada, Hannah falou em voz baixa à funcionária da recepção. – Aquela mulher que ali está, a pôr tudo em alvoroço e a fazer aquele barulho todo… como é que ela se chama? É nossa conhecida?

– Oh, Céus, sim, é bem conhecida. Chama-se Julie Grayson. Não aparece todos os dias, mas quando cá vem gosta de bater o pé e gritar e, regra geral, fazer com que a sua presença seja notada. É uma sorte hoje estar sozinha. Simplifica-nos a vida.

– Porquê? – Hannah tentava manter um tom de voz profissional.

– Bem, ela tem de lidar com imensos problemas, reconheço, mas quando traz os filhos, principalmente o rapaz, é o caos imediato. Se bem que, para ser justa, ela hoje tem razão. Está à espera há séculos que alguém a receba, relativamente tranquila. – A mulher de meia-idade sorriu a Hannah de modo esperançoso. – Hoje estão todos muito atarefados e há dois assistentes fora em serviço… talvez pudesses recebê-la depois da jovem Cleo? Sei que não estás de serviço, mas estou certa de que não demorará muito tempo. Deve ter a ver com o filho dela, tenho a certeza…

– Lamento, Pat, não posso mesmo. Já estou sobrecarregada, mas se tentares apanhar o Barry, talvez ele possa ajudar, se ainda estiver no edifício. Ele estava no nosso gabinete há minutos. Explica-lhe a situação.

Encolhendo os ombros em jeito de pedido de desculpa, Hannah virou-se e só então deixou cair o sorriso dos lábios. Obrigou-se a respirar fundo para não hiperventilar devido ao choque de ter visto Julie Grayson.

Julie Grayson?

Hannah não reconheceu o apelido, mas conhecia o nome próprio, e certamente reconheceu a voz, o tom e os traços faciais básicos. Bem como, claro está, a óbvia fúria intensa que fervilhava dentro dela.

Percebeu, sem sombra de dúvida, que a mulher chamada Julie Grayson, que continuava a gritar, a dizer palavrões e a fazer gestos ameaçadores na recepção, era Julie, a sua irmã mais nova, a foragida com quem não tinha nenhum contacto há cerca de vinte anos.

A entrevista com Cleo passou num ápice, enquanto Hannah organizava mecanicamente os habituais preparativos. Normalmente, mostrava-se solidária para com esta bela jovem cuja família era uma das mais disfuncionais que constavam dos seus processos, mas desta vez, Hannah só queria sair da sala de entrevista e regressar ao seu gabinete.

Ao passar pela zona da recepção, olhou de soslaio. Julie já lá não estava e Hannah não sabia bem se a teriam mandado embora ou se estaria a ser recebida por alguém. Também não sabia se se sentia aliviada ou decepcionada. Subitamente, tornou-se imperativo regressar à sua secretária e computador para poder verificar, sub-repticiamente, os registos e a morada da mulher que ela apenas conhecia como a sua irmã mais nova, Julie Beecham.

Pode ler os primeiros capítulos de Vidas Estilhaçadas, de Bernardine Kennedy, aqui.



publicado por Rita Mello às 16:57 | link do entrada | favorito

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