Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

 

 

Sou uma mentirosa? Sou, pois disse ao meu banco que frequentei a escola de hotelaria e que fiz um estágio de dezoito meses na cozinha do Ritz. Apresentei os diplomas e os contratos que forjara na véspera. Exibi, assim, um BTS [diploma universitário de técnico superior] de gestão, uma bela falsificação. Gosto de viver em situações de risco. Foi o que me deitou a perder, outrora, é o que me leva a vencer, agora. No banco, ficaram encantados. Concederam-me o empréstimo. Agradeci sem hesitar. Uma inspecção médica? Nenhum problema. O meu sangue, o meu precioso sangue, é puro, completamente puro, como se nada tivesse passado por mim.

Serei uma mentirosa? Não, pois sei fazer tudo o que asseguro saber fazer. Manejo as espátulas como um malabarista as suas maças; qual contorcionista, acciono com leveza, e de forma independente, as diferentes partes do corpo: com uma mão, bato um molho, enquanto com a outra separo as claras das gemas e ato uma aumônière [espécie de crepe recheado de ingredientes doces ou salgados, que é dobrado e fechado em forma de bolsa]. É verdade que os adolescentes de lábio superior penugento e rosto salpicado de borbulhas, e cabelo gorduroso escondido debaixo do chapéu de ajudantes de cozinha, podem saber controlar a cor de âmbar de um caramelo definitivamente macio, amanhar um salmonete sem desperdiçar um miligrama de carne e alinhar salsichas como Penélope fazia malha. Mas. MAS! Fechem-nos numa cozinha com cinco garotos aos berros, cheios de fome, que lhes tolhem as pernas e são obrigados a voltar para a escola meia hora mais tarde (um é alérgico a lacticínios, e outro não gosta de nada), lancem os nossos valentes aprendizes neste fosso de crias de leões, com um frigorífico vazio, frigideiras cujo fundo deixa queimar os alimentos, e o desejo de servir aos garotos uma refeição equilibrada, e depois deixem-nos entrar em acção. Observem a obra dos corajosos jovens de faces rosadas e vejam como se desembaraçam.

Tudo o que os seus diplomas consagram, aprendi eu nas minhas vidas. A primeira vida, nos tempos remotos em que fui mãe de família. A segunda, numa época mais recente, quando ganhava o pão na cozinha do circo Santo Salto.

O meu restaurante será pequeno e de preços módicos. Não gosto de coisas complicadas. Chamar-se-á Chez moi, pois é lá que dormirei; não tenho dinheiro que chegue para pagar a renda de um estabelecimento e a de um apartamento.

Os clientes comerão todas as receitas que eu inventar, as que transformar, as que intuir. Não haverá música de fundo – sou demasiado emotiva – e os candeeiros do tecto serão cor de laranja. Já comprei um frigorífico gigante na avenue de la République. Prometeram-me um forno e uma placa de cozinha a preços acessíveis.

«Não se importa se estiver riscada? – De modo nenhum! Eu mesma estou bastante riscada.» O vendedor não se ri. Não sorri. Os homens não apreciam que as mulheres se desvalorizem. Também encomendo uma máquina de lavar louça com capacidade para quinze conjuntos de talheres, é o modelo mais reduzido. «Não será suficiente, afirma o tipo. – É o máximo a que posso atrever-me. Para os primeiros tempos, será suficiente.» O vendedor promete enviar-me clientela. Promete que ele próprio irá jantar um dia ao meu restaurante, sem avisar; para me fazer uma surpresa. Tenho a certeza de que está a mentir, mas é-me indiferente, não me seria agradável cozinhar para ele.

Cozinho com e por amor. Como proceder para gostar dos meus clientes? O luxo da interrogação leva-me a pensar nas prostitutas que, justamente, não têm direito a esse luxo.

Continue a ler os primeiros capítulos de Doces Aromas, de Agnès Desarthe, aqui.



publicado por Rita Mello às 15:43 | link do entrada | favorito

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