Segunda-feira, 22 de Março de 2010

 

A MULHER DA GARÇA-REAL

1999

 

Madeline Heller sabia que era imprudente. Voara de Londres para Nova Iorque dois dias antes do previsto e estava agora no seu quarto no Hotel Lion Park em Knightsbridge. O ar estava parado e cheio de partículas de pó; as janelas não eram abertas há meses. Cheirava tudo a cedro e a alfazema. Maddy tinha calor e estava exausta da viagem, mas não se deu ao trabalho de ligar o ar condicionado. Estava louca, terrível e ridiculamente apaixonada pelo homem errado e isso fazia-a querer ficar ali deitada na cama, sem se mexer.

Madeline não era estúpida; era advogada em Nova Iorque. Tinha trinta e quatro anos e era licenciada pela Oberlin School e pela Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque, uma mulher alta com cabelo preto comprido. Muitas pessoas achavam-na bela e inteligente, mas nenhuma dessas pessoas interessava. Não a conheciam. Não faziam ideia de que ela era uma traidora do seu próprio sangue. Nunca adivinhariam que seria capaz de dar cabo da sua vida com tamanha facilidade, sem pensar duas vezes.

Havia amor bom e amor mau. Havia o tipo de amor que ajudava as pessoas a ultrapassarem os seus defeitos e havia o tipo de amor desesperado que atacava quando as pessoas menos o desejavam ou esperavam. Fora isso que acontecera a Maddy nesta última Primavera, quando viera a Londres ajudar a irmã com os preparativos do casamento. Allie nem sequer lhe tinha pedido ajuda; fora a mãe, Lucy, que dissera a Maddy que devia ir a Londres ajudar a irmã; afinal de contas, era a dama de honor. E, quando lá chegara, Allie já tinha tratado de tudo, como sempre.

 

Allie era treze meses mais velha. Era a irmã boa, a irmã perfeita, aquela que tinha tudo. Era escritora e publicara um livro infantil extremamente popular. Quando andava na rua as pessoas reconheciam-na com frequência e ela estava sempre disposta a dar autógrafos para o filho de alguém ou a oferecer a um fã um ex-líbris que trazia sempre na mala. Uma vez por ano, voltava aos Estados Unidos para fazer leituras num evento que se tornara muito popular, em que as crianças se mascaravam de pássaros. Havia filas de patos, corvos e cardinais, miúdos de nove e dez anos à espera que ela assinasse o seu exemplar de A Mulher da Garça-Real. Por vezes, Maddy acompanhava a irmã nestas digressões. Achava inacreditável tanto alarido por causa de uma história infantil pateta, cuja ideia Allie roubara a uma história que a mãe costumava contar-lhes. Tecnicamente, a história pertencia tanto a Maddy como à irmã, não que ela sentisse necessidade de escrever um livro ou de alterar completamente a história para proveito pessoal.

Lucy Heller costumava contar a história junto ao pântano, onde as filhas tinham crescido. A mãe de Lucy, avó das meninas, entrara descalça num lago em Central Park para falar com uma enorme garça-real azul. Não quis saber do que as pessoas pensavam; limitou-se a entrar por ali adentro. Pedira à garça para cuidar de Lucy e ela sempre o fizera. Agora Lucy pedira-lhe para proteger as suas filhas e ela viera viver no pântano do Connecticut.

Como pode uma garça cuidar de uma pessoa? segredara Maddy à irmã. Não tinha muita fé nas histórias, apesar de ter apenas oito anos. Nesse aspecto, era tão céptica como a mãe sempre fora.

Ela pode ter duas vidas separadas respondera Allie rapidamente, como se a resposta fosse simples, mas Maddy pura e simplesmente não era capaz de desvendar os mistérios do Universo. Tem a sua vida de garça no céu e a outra vida aqui em baixo.

Ainda bem que pode ajudar-nos às duas dissera Maddy.

Não sejas palerma Allie era sempre muito decidida e segura de si própria. A garça azul só tem um amor verdadeiro.

E foi assim que aconteceu no livro de Allie. Havia uma mulher que se casara com o homem que amava. O casal vivia numa casa parecida com a casa no pântano onde as irmãs tinham crescido. Havia os mesmos juncos altos e prateados, o mesmo céu negro como breu. Os noivos viveram na sua casa feita de paus e pedras durante quase um ano, felizes e em paz. E depois, um dia, quando o homem andava à pesca para o jantar, ouviu-se bater à porta. A mulher abriu e ali estava a outra esposa do noivo, uma garça-real azul que vinha à procura do marido desaparecido.

Como suportas estes miúdos todos à tua volta? perguntara Maddy uma vez, numa leitura particularmente concorrida. As crianças eram ranhosas, estavam cheias de germes, eram barulhentas e mal-educadas. E precisariam mesmo de rir tão alto? Era ensurdecedor.

No livro de Allie, a esposa-garça definhava. As suas penas estavam a cair e não comia nada desde que o marido partira.

Uma de nós vencerá e a outra perderá, mas qual será qual?, perguntou à outra esposa que lhe abrira a porta.

São os meus leitores. Quero que se riam.

Era sempre Allie que vinha de visita a casa, mas desta vez, por fim, Maddy podia ser hóspede da irmã. Francamente, tentara evitar vir a Londres; dissera que estava muito ocupada, mas era mais do que isso. Não precisava de ver o quão perfeito era o mundo de Allie. Por fim, não conseguiu fugir mais; afinal de contas, tinha de vir ao casamento. Um casamento onde Maddy seria mais uma vez a personagem secundária, a irmãzinha má que não era capaz de seguir regras, que mesmo em adulta ainda tinha medo de coisas ridículas, trovoadas e ratos, engarrafamentos de trânsito e aviões. O mais provável era que a fizessem envergar um vestido horrível, de algum tecido sintético pavoroso, para que a irmã pudesse brilhar envolta em seda ou cetim brancos. De segunda categoria, a segunda melhor, o lado negro de tudo. Nunca acreditava nos homens que lhe diziam que era bela e evitava fazer amigos. Trabalhava e fechava-se em si própria, o tipo de mulher que é capaz de assistir indiferente enquanto um grupo de crianças arranca as asas de uma borboleta ou enterra um sapo vivo na lama. O que as pessoas faziam no seu tempo não lhe dizia respeito. A crueldade era, afinal de contas, um facto da vida. Não era da sua responsabilidade corrigir os males do mundo. Esse tipo de coisa era preocupação da irmã.

 

Podem continuar a ler as primeiras páginas de O Terceiro Anjo, de Alice Hoffman, aqui.



publicado por Rita Mello às 11:45 | link do entrada | comentar | favorito

2 comentários:
De Mariana a 23 de Março de 2010 às 10:43
Já li o excerto!
Faz-me lembrar a história de Emilly Giffin, "Até que ele nos separe" porque a melhor amiga trai a outra com o noivo.
Gostei do excerto!


De B. a 24 de Março de 2010 às 16:13
Adorei o primeiro capitulo! Este livro promete :D


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