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CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

CHOCOLATE PARA A ALMA – LER NÃO ENGORDA

19
Abr10

COMECE A LER MARIDOS

Rita Mello

 

 

APESAR DISSO


Dava raiva, porque se tinham amado tanto e de formas tão diversas durante os duzentos anos em que já se conheciam que era uma pena separarem-se assim, como se nada fosse.

Duzentos anos, dizia ela, porque com o tempo adquiriu a certeza de que assim fora. A sua fé no absoluto era tão estranha que ia pegando em coisas de todas as religiões que tinha à mão, e aquilo das várias vidas, das almas jovens e das almas velhas, agradou-lhe desde que o referiram como uma verdade tecida com fios de prata.

Não hesitou em agarrar-se à certeza de que se conheciam há tantos anos que não lhes era possível recordar. Ter-se-iam visto seguramente pela primeira vez, pensava, em 1754, provavelmente em Valência, e uma outra vez ou muitas durante o século XIX, a meio de uma guerra ou num baile, mas o encontro de 1967, em que se cruzaram numas escadas mesmo no centro da cidade de Puebla, marcou-os positiva e definitivamente, embora como das outras vezes estivesse tudo prestes a acabar mal.

Quem sabe porque a vida coloca armadilhas àqueles que, vistos de fora, não podem ser mais do que um casal para o resto das suas vidas, mas diz-se que isso acontece e está visto que não só eles, mas qualquer coisa no mundo se entristece quando se perdem um ao outro.

No século XX, Ana García e Juan Icaza, grandes nomes da pequena cidade, tornaram-se namorados desde o instante em que aquela escada os submeteu ao seu feitiço. Ela ia a subir e ele vinha a descer quando o ar se cruzou entre eles e o perfume atravessou as suas roupas. Ela trazia um vestido branco, estava calor. Ele tinha na mão um chapéu cordovês, fazendo com que qualquer um pensasse que ia ou vinha de uma praça de touros.

Aí e naquele tempo era ainda o homem quem iniciava a corte e ele demorou meio minuto a iniciá-la. Perguntou-lhe se era filha do seu pai e contou-lhe que fazia os fios com que o bom senhor tecia os seus panos. Disse-lhe que parecia uma pomba da paz e ela sorriu dizendo que as pombas estão sempre em guerra, que não havia campanário ou praça que desse fé de outra coisa e que nenhuma mulher vestida de branco podia ser de grande confiança.

Dizem as histórias que a ironia não é útil para falar com os homens, mas ela esqueceu-se e, irremediavelmente, deixou escapar alguma. Desde esse momento e para sempre, o relacionamento entre eles teria os seus altos e os seus baixos sempre que Ana ironizava acerca do irremediável. Por exemplo, da paixão de Juan por si próprio, da sua língua comprida, da sua vaidade sem estorvos, do seu aspecto de bêbado empedernido.

Foram namorados durante uns tempos. Namorados daqueles que acabam a despedir-se à porta de casa, quando o encontro deveria começar.

Depois de uma dessas despedidas, ele foi beber com os amigos, e de beber a namoriscar com uma ruiva decorreu um segundo. No dia seguinte, meia cidade acordou contando que Icaza tinha dançado com uma gringa, colado a ela como uma etiqueta.

– Eu estava bêbado – disse ele para se desculpar.

– Ainda pior – respondeu-lhe Ana, afastando-se do abraço que não dariam.

Essa madrugada, e as trinta que se seguiram, Juan passou-as a cantar sob a exótica varanda de Ana, que se fingia surda enquanto toda a família se aborrecia por não o ser. Acompanhava-o um mariachi que conhecia de trás para a frente todas as canções que têm pombas traidoras em alguns dos seus versos. Sem falar da pomba negra, da pomba querida, da pomba que chega a uma janela e da que nunca lá chega, da pomba em cujos braços alguém viveu a história de amor que nunca sonhou, da pomba que sabe que o despedaça se no dia de amanhã perde a fé nele.


Podem continuar a ler o primeiro conto de Maridos, de Ángeles Mastretta, aqui.

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