Segunda-feira, 12.04.10

 

Nem sempre fui a mulher de Osama bin Laden. Houve um tempo em que fui uma criança que tinha sonhos de menina. Hoje, os meus pensamentos voltam muitas vezes a essa época, e recordo a rapariguinha que fui e a infância segura e feliz que vivi.

Ouço constantemente adultos a falarem da sua infância com mágoa e até com raiva, felizes por esses anos terem ficado para trás. É uma coisa que me faz confusão, porque, se pudesse, voltava a essa primeira parte da minha vida e continuaria a ser criança para sempre.

Eu, os meus pais e os meus irmãos vivíamos numa modesta moradia na cidade portuária de Lataquia, na Síria. A região costeira do meu país natal é encantadora, com brisas marítimas e terra fértil onde os afortunados agricultores cultivam frutos e legumes. O nosso quintal tinha imensas árvores verdes, carregadas de deliciosos frutos. Para lá da estreita planície litoral, avistávamos as pitorescas montanhas costeiras, de sopés talhados em socalcos onde cresciam pomares e olivais.

A família Ghanem era constituída por sete pessoas, o que garantia à casa uma buliçosa agitação. Eu fora a segunda a nascer e dava-me bastante bem com o meu irmão mais velho, Naji, e com os meus irmãos mais novos, Leila, Nabeel e Ahmed. Havia ainda um meio-irmão, Ali, alguns anos mais velho do que os filhos da minha mãe.

 

Podem continuar a ler o primeiro capítulo de A Minha Vida com Osama bin Laden, de Najwa bin Laden, Omar bin Laden e Jean Sasson, aqui.



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Terça-feira, 06.04.10

 

No vale da aldeia a que um dia chamariam São Miguel da Cana, os homens e as mulheres esperavam, remexiam a terra deNovembro e olhavam para o céu.

Chegavam nuvens, vindas da costa em longas e solitárias caravanas, seguindo o leito seco dos rios.

Por vezes chovia. Pequenas folhas verdes desenrolavam-se dos ramos secos, e uma erva macia atapetava o chão da mata de arbustos espinhosos a que chamavam caatinga, a floresta branca, por ser demasiado pobre para ter cor. Nessas alturas, os homens e as mulheres estudavam o céu, desconfiados. Por vezes, a chuva caía tão perto que conseguiam cheirá-la, mas se não voltava a cair naquele pedaço de terra, as folhas ficavam castanhas e crepitavam ao vento. Aquilo podia matar um campo, diziam: uma única chuvada, e depois o céu vazio. Criava falsas esperanças nas pessoas, criava falsas esperanças na terra. Chamavam-lhe seca verde e amaldiçoavam-na entre dentes. A chuva é como um homem, diziam as mulheres, ilude-nos com doces dádivas, mas se não fica, é pior do que nada.

Quando a chuva não voltava, as primeiras plantas a morrer eram as ervas. Então, a mata tornava-se quebradiça e os cactos ficavam cinzentos. Em Dezembro, na véspera do Dia de Santa Luzia, deixavam no chão seis pedaços de sal, para adivinhar a seca, e de manhã contavam quantos se tinham derretido e quantos restavam.

Finalmente, quando a terra ficava tão quente que qualquer chuva que caísse se limitaria a voltar para o céu sob a forma de vapor, começavam a preparar-se. Chamavam-lhe a retirada, como se instalarem-se nas terras do interior tivesse sido, para começar, uma coisa insensata e anormal. Muitos já tinham passado por outras secas e conheciam até bem de mais os rituais da fuga e do inseguro regresso. Nos campos ressequidos, batiam com as pás na pedra e procuravam na terra pedaços de mandioca. Faziam cálculos, verificando as provisões de carne salgada e o nível de água nos poços.

À medida que os dias passavam, estudavam o céu, pondo as suas esperanças em nuvens distantes que desapareciam como que embruxadas. Apanhavam do chão punhados de terra, acariciavam-nos e esmagavam-nos entre os dedos, faziam rolar o pó quente ao longo dos calos secos dos polegares, provavam-no, falavam com ele. Exortavam, pediam desculpa, suplicavam. Certa vez, um jornalista da costa que estivera com eles escrevera: Os camponeses conhecem a textura da terra melhor do que as suas próprias caras. Quando a história foi lida em voz alta nos campos crestados, um velho riu e disse, Claro! Nasci lá, sou demasiado pobre para ter um espelho, e quando foi que houve água suficiente para um charco?

 

Podem continuar a ler o primeiro capítulo de Uma Terra Distante, de Daniel Mason, aqui.



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Segunda-feira, 22.03.10

 

A MULHER DA GARÇA-REAL

1999

 

Madeline Heller sabia que era imprudente. Voara de Londres para Nova Iorque dois dias antes do previsto e estava agora no seu quarto no Hotel Lion Park em Knightsbridge. O ar estava parado e cheio de partículas de pó; as janelas não eram abertas há meses. Cheirava tudo a cedro e a alfazema. Maddy tinha calor e estava exausta da viagem, mas não se deu ao trabalho de ligar o ar condicionado. Estava louca, terrível e ridiculamente apaixonada pelo homem errado e isso fazia-a querer ficar ali deitada na cama, sem se mexer.

Madeline não era estúpida; era advogada em Nova Iorque. Tinha trinta e quatro anos e era licenciada pela Oberlin School e pela Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque, uma mulher alta com cabelo preto comprido. Muitas pessoas achavam-na bela e inteligente, mas nenhuma dessas pessoas interessava. Não a conheciam. Não faziam ideia de que ela era uma traidora do seu próprio sangue. Nunca adivinhariam que seria capaz de dar cabo da sua vida com tamanha facilidade, sem pensar duas vezes.

Havia amor bom e amor mau. Havia o tipo de amor que ajudava as pessoas a ultrapassarem os seus defeitos e havia o tipo de amor desesperado que atacava quando as pessoas menos o desejavam ou esperavam. Fora isso que acontecera a Maddy nesta última Primavera, quando viera a Londres ajudar a irmã com os preparativos do casamento. Allie nem sequer lhe tinha pedido ajuda; fora a mãe, Lucy, que dissera a Maddy que devia ir a Londres ajudar a irmã; afinal de contas, era a dama de honor. E, quando lá chegara, Allie já tinha tratado de tudo, como sempre.

 



publicado por Rita Mello às 11:45 | link do entrada | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quarta-feira, 10.03.10

 

 

Que romances de Madeline Hunter foram já publicados na ASA?

 

Envie a sua resposta para joanneharris@sapo.pt – e se estiver correcta e for a 1.ª, a 10.ª, a 25.ª, a 50.ª ou a 100.ª a chegar, ganha automaticamente um dos cinco exemplares de Casamento de Conveniência, de Madeline Hunter, que a ASA tem para oferecer. A data limite é domingo, dia 14 de Março.

Pode ler os primeiros capítulos do livro aqui.



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Sexta-feira, 05.03.10

 

 

– Se o vosso irmão vier a saber disto, terei muita sorte se conseguir escapar com a minha virilidade intacta, para não falar da minha cabeça – proferiu Thomas.

A luz pálida da lua lançava sombras nas paredes dos estabelecimentos que se alinhavam ao longo da rua. Movimentos ominosos à esquerda e à direita captavam ocasionalmente a atenção de Christiana, mas esta noite ela não receava salteadores nem ladrões. Ao seu lado cavalgava Thomas Holland, um dos cavaleiros da rainha, e o brilho do seu archote punha em evidência a sua longa espada. Christiana não esperava desafios de quem quer que os visse na cidade depois do recolher obrigatório.

– Ele nunca saberá, prometo-vos. Ninguém virá a saber. – Tranquilizou-o.

Thomas tinha razões para estar preocupado. Se Morvan, o irmão de Christiana, descobrisse que ele a ajudara a escapulir-se de Westminster depois do anoitecer, fá-lo-ia pagar bem caro. Todavia, ela assumiria todas as responsabilidades caso fossem descobertos. Afinal, dificilmente se poderia meter num sarilho maior do que este.

– Esse mercador que necessitais de ver deve ser rico, uma vez que não reside sobre o estabelecimento – proferiu Thomas com ar apreensivo. – Não é minha intenção intrometer-me, senhora, mas esta é uma altura peculiar para fazer visitas, e para mais, em segredo. Espero não estar a conduzir-vos a algum amante. O rei em pessoa esventrar-me-ia se fosse esse o caso.

Christiana teria achado graça à sugestão dele, se o seu transtorno, naquele momento, não a tivesse deixado demasiado indisposta para apreciar a terrível piada.

– Não é um amante, e venho a esta hora porque é a única altura em que tenho a certeza de o encontrar em casa – replicou, na esperança de que ele não pedisse mais explicações.

Necessitara de toda a sua astúcia para conseguir escapulir-se para esta visita clandestina, e já não lhe restava mais para inventar outra mentira.

O dia anterior fora o pior e o mais longo da sua vida. Teria sido apenas na noite anterior que se encontrara com a rainha Filipa e lhe havia sido comunicada a decisão do rei de aceitar uma oferta de casamento para ela? Desde então, todos os momentos haviam sido uma eternidade de pânico e indignação.

Não era contra o casamento em si que ela se opunha. Na realidade, com dezoito anos, já ultrapassara a idade em que a maior parte das raparigas contraíam matrimónio. Mas aquela oferta não proviera de Stephen Percy, o cavaleiro a quem oferecera o seu coração. Nem proviera de qualquer outro cavaleiro ou lorde, como seria adequado à filha de Hugh Fitzwaryn, uma menina pertencente a uma família da antiga nobreza.

Não, o rei Eduardo decidira casá-la com David de Abyndon, que ela nunca conhecera.

Um mercador comum.

Um mercador comum e idoso, de acordo com as palavras da sua tutora, Lady Idonia, que se recordava de comprar sedas ao senhor David, o mercador da sua juventude.

Era a forma de o rei a castigar. Desde a morte dos seus pais que ficara sob a sua custódia e vivia na corte com a sua filha mais velha, Isabele, e a jovem prima dele, Joan do Kent. O rei devia ter explodido de fúria quando descobrira a sua ligação com Stephen, para lhe atribuir um castigo assim tão drástico.

Stephen. O belo e loiro Stephen. O coração de Christiana sofria por ele. As suas atenções secretas haviam trazido o sol à sua vida protegida e solitária. Fora o primeiro homem a atrever-se a fazer-lhe a corte. Morvan ameaçara matar todo o homem que a cortejasse antes dos esponsais. A corpulência do irmão e a sua destreza com as armas haviam-se revelado um impedimento desgraçadamente eficaz a qualquer ligação amorosa. As outras raparigas da corte tinham admiradores, mas ela não. Até Stephen aparecer.

Aquele casamento seria um castigo severo pelo que havia acontecido naquela cama antes de Idonia os ter encontrado juntos. Um castigo que ela não planeava aceitar. Tão-pouco o aceitaria o idoso mercador quando tivesse conhecimento da forma como estava a ser usado pelo rei.

 

Podem ler os primeiros capítulos de Casamento de Conveniência, de Madeline Hunter , aqui.



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Sexta-feira, 26.02.10

 

 

Leia os primeiros capítulos de Casada à Força, de Sameem Ali, e responda a esta questão:

 

Como se chamava a mulher que tomava conta da autora no lar para crianças?

 

Envie a sua resposta para joanneharris@sapo.pt – e se estiver correcta e for a 1.ª, a 10.ª, a 25.ª, a 50.ª ou a 100.ª a chegar, ganha automaticamente um exemplar de Casada à Força, de Sameem Ali, que a ASA tem para oferecer. A data limite é terça-feira, dia 2 de Março.

Pode ler os primeiros capítulos do livro aqui.



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Quinta-feira, 25.02.10

 

 

PRÓLOGO

 

Há muitas coisas no meu passado que me custa recordar; ainda hoje choro quando me lembro de tudo o que me fizeram e disseram. As minhas memórias não são um consolo para mim, um lugar onde me refugie; são uma maldição.

A minha mãe era tudo para mim e passei a minha infância decidida a não lhe dar razões para pensar em mim senão como uma filha obediente, bem-educada e trabalhadora. Uma filha de que se orgulhasse, uma filha que pudesse justificadamente acarinhar. Uma filha que merecesse o seu amor.

Há alguns anos, quando finalmente falei a uma pessoa sobre o meu passado, ela disse-me, espantada: «Deves ter sido adoptada. Não pode, pura e simplesmente, haver outra razão; nenhuma mãe trataria a sua própria filha dessa forma. Porque é que não tentamos encontrar o teu processo da Segurança Social e descobrir quem era a tua verdadeira mãe, ver o que conseguimos apurar sobre o teu passado?»

Parecia tão simples, tão acertado. Claro que era isso que acontecera; como é que não me ocorrera antes? Explicaria muita coisa e responderia a todas as minhas perguntas. Abracei a ideia entusiasticamente e foi assim que, algumas semanas mais tarde, nos encontrámos as duas num gabinete, com lágrimas rolando-me pelas faces ao passar os olhos por um processo que explicava que não, eu não fora adoptada, fora retirada à minha família pela Segurança Social quando esta deixou de poder prover ao meu sustento e educação, e de novo entregue ao seu cuidado alguns anos mais tarde, quando me quiseram de volta. Desejava ardentemente sentir-me feliz a respeito da minha infância e pensara que esta ia ser a forma de reclamar esses anos; mas senti, pelo contrário, que o meu próprio passado me assaltava. Foram pessoas do meu próprio sangue que me bateram, espancaram, chicotearam, raptaram, forçaram a casar, estigmatizaram, ignoraram, humilharam e, pior que tudo, que não me amaram. Podia superar quase tudo, mas não isto: eu era uma menina, e desejava a única coisa que não me deram. Eu merecia amor.

 

Podem ler os primeiros capítulos de Casada à Força, de Sameem Ali, aqui.



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Quarta-feira, 03.02.10

 

 

Leia os primeiros capítulos de A Paixão de Emma, de Charlotte Bingham, e responda a esta questão:

 

Durante o baile, quantos nomes tem Emmaline no seu cartão de dança quando Julius a convida para dançar?

 

Envie a sua resposta para joanneharris@sapo.pt – e se estiver correcta e for a 1.ª, a 10.ª, a 25.ª, a 50.ª ou a 100.ª a chegar, ganha automaticamente um exemplar de  A Paixão de Emma, de Charlotte Bingham, que a ASA tem para oferecer. A data limite é domingo, dia 7 de Fevereiro.

Pode ler os primeiros capítulos do livro aqui.

 



publicado por Rita Mello às 15:21 | link do entrada | comentar | ver comentários (9) | favorito

Terça-feira, 02.02.10

 


 

Bastaram apenas alguns minutos para que Emmaline se apaixonasse por aquele homem que tanto se esforçava por ser galante e encantador. A partir do momento em que ele parou diante da sua cadeira  e começou a falar, ela soube que nada jamais voltaria a ser igual.

 

Podem ler os primeiros capítulos de A Paixão de Emma, de Charlotte Bingham, aqui.



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Segunda-feira, 11.01.10

 

 

Não há motivo para alarme, digo para comigo. É assim o jogo. Poppy esconde-se, eu procuro. Contudo, à medida que corro pela galeria, atirando com as portas e nada encontrando, um pavor informe começa a agitar-se no meu âmago. Passaram aproximadamente vinte e cinco minutos desde que ouvi a porta a fechar-se. Precipito-me escadas abaixo e detenho-me junto à janela panorâmica, tentando manter a calma. Atrás de mim, a casa ressoa com a ausência da minha filha.


Podem ler o primeiro capítulo de Desaparecida, de Katy Gardner, aqui.



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Quarta-feira, 04.11.09

 

 

Querida Daisy,

Sempre gostei de ter a última palavra, não gostei? Aqui sentada a escrever isto, preparando-me para o guardar na caixa com todas as recordações que juntei para ti ao longo dos anos, espero sinceramente que os médicos possam estar enganados no seu diagnóstico e que daqui a alguns anos possamos remexer as duas na caixa e rir-nos do que contém.

Mas, se não puder partilhar esse momento contigo, espero que ela te conforte pois foi criada com muito amor e as minhas pequenas notas, ainda que embaraçosas para mim agora, provam o que eu sentia nesse tempo.

Não há criança que tenha sido mais amada do que tu. A pura felicidade que eu e o teu pai sentimos quando nos foste entregue ainda hoje, depois destes anos todos, me causa um nó na garganta. Essa felicidade foi quase certamente a razão por que, cinco anos mais tarde, consegui conceber os gémeos quando nos tinham dito que seria impossível.

Encheste as nossas vidas de felicidade, depois de muitos anos de decepção, e sempre tivemos um grande orgulho em ti. Não te afastes dos gémeos porque os laços de uma infância comum são tão fortes como os laços de sangue. Desejo-te tanta alegria e felicidade na tua vida como eu tive na minha e a única tristeza que experimento é não estar viva para conhecer os meus netos. O cheque que junto é uma parte do dinheiro que me foi deixado pelo meu pai. Também ele morreu sem conhecer os netos que esperava vir a ter e o facto de ter guardado algum para dividir contigo, com a Lucy e com o Tom foi uma forma de lhe prestar tributo. Por isso, minha querida, gasta-o com prudência. Uma despedida final não é momento para sermões e já tos dei em abundância no passado. Agora, tudo o que posso dizer é que te amo e que estarei a velar por ti.

Com todo o meu amor,

Mamã

 

Leia os primeiros capítulos de Procuro-te, de Lesley Pearse, aqui.



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Quarta-feira, 28.10.09

 

 

Leia os primeiros capítulos de Doces Aromas, de Agnès Desarthe, e responda a esta questão:

Como se chama o restaurante da protagonista?

 

Envie a sua resposta para joanneharris@sapo.pt – e se estiver correcta e for a 1.ª, a 10.ª, a 25.ª, a 50.ª ou a 100.ª a chegar, ganha automaticamente um exemplar de  Doces Aromas, de Agnès Desarthe, que a ASA tem para oferecer. A data limite é sábado, dia 31 de Outubro.

Pode ler os primeiros capítulos do livro aqui.

 



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Sexta-feira, 23.10.09


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Quinta-feira, 22.10.09

 

 

Sou uma mentirosa? Sou, pois disse ao meu banco que frequentei a escola de hotelaria e que fiz um estágio de dezoito meses na cozinha do Ritz. Apresentei os diplomas e os contratos que forjara na véspera. Exibi, assim, um BTS [diploma universitário de técnico superior] de gestão, uma bela falsificação. Gosto de viver em situações de risco. Foi o que me deitou a perder, outrora, é o que me leva a vencer, agora. No banco, ficaram encantados. Concederam-me o empréstimo. Agradeci sem hesitar. Uma inspecção médica? Nenhum problema. O meu sangue, o meu precioso sangue, é puro, completamente puro, como se nada tivesse passado por mim.

Serei uma mentirosa? Não, pois sei fazer tudo o que asseguro saber fazer. Manejo as espátulas como um malabarista as suas maças; qual contorcionista, acciono com leveza, e de forma independente, as diferentes partes do corpo: com uma mão, bato um molho, enquanto com a outra separo as claras das gemas e ato uma aumônière [espécie de crepe recheado de ingredientes doces ou salgados, que é dobrado e fechado em forma de bolsa]. É verdade que os adolescentes de lábio superior penugento e rosto salpicado de borbulhas, e cabelo gorduroso escondido debaixo do chapéu de ajudantes de cozinha, podem saber controlar a cor de âmbar de um caramelo definitivamente macio, amanhar um salmonete sem desperdiçar um miligrama de carne e alinhar salsichas como Penélope fazia malha. Mas. MAS! Fechem-nos numa cozinha com cinco garotos aos berros, cheios de fome, que lhes tolhem as pernas e são obrigados a voltar para a escola meia hora mais tarde (um é alérgico a lacticínios, e outro não gosta de nada), lancem os nossos valentes aprendizes neste fosso de crias de leões, com um frigorífico vazio, frigideiras cujo fundo deixa queimar os alimentos, e o desejo de servir aos garotos uma refeição equilibrada, e depois deixem-nos entrar em acção. Observem a obra dos corajosos jovens de faces rosadas e vejam como se desembaraçam.

Tudo o que os seus diplomas consagram, aprendi eu nas minhas vidas. A primeira vida, nos tempos remotos em que fui mãe de família. A segunda, numa época mais recente, quando ganhava o pão na cozinha do circo Santo Salto.

O meu restaurante será pequeno e de preços módicos. Não gosto de coisas complicadas. Chamar-se-á Chez moi, pois é lá que dormirei; não tenho dinheiro que chegue para pagar a renda de um estabelecimento e a de um apartamento.

Os clientes comerão todas as receitas que eu inventar, as que transformar, as que intuir. Não haverá música de fundo – sou demasiado emotiva – e os candeeiros do tecto serão cor de laranja. Já comprei um frigorífico gigante na avenue de la République. Prometeram-me um forno e uma placa de cozinha a preços acessíveis.

«Não se importa se estiver riscada? – De modo nenhum! Eu mesma estou bastante riscada.» O vendedor não se ri. Não sorri. Os homens não apreciam que as mulheres se desvalorizem. Também encomendo uma máquina de lavar louça com capacidade para quinze conjuntos de talheres, é o modelo mais reduzido. «Não será suficiente, afirma o tipo. – É o máximo a que posso atrever-me. Para os primeiros tempos, será suficiente.» O vendedor promete enviar-me clientela. Promete que ele próprio irá jantar um dia ao meu restaurante, sem avisar; para me fazer uma surpresa. Tenho a certeza de que está a mentir, mas é-me indiferente, não me seria agradável cozinhar para ele.

Cozinho com e por amor. Como proceder para gostar dos meus clientes? O luxo da interrogação leva-me a pensar nas prostitutas que, justamente, não têm direito a esse luxo.

Continue a ler os primeiros capítulos de Doces Aromas, de Agnès Desarthe, aqui.



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Sexta-feira, 16.10.09

 

RUGAS VILLAGE

 

Pippa tinha de admitir: a casa agradava-lhe.

Explicaram-lhes que aquela era uma das moradias mais recentes. Tinha máquina de lavar louça, máquina de lavar roupa, máquina de secar roupa, microondas, forno eléctrico, tudo novo. Alcatifa nova, fossa séptica, telhado. No entanto, o chão da cave tinha uma racha no cimento e algumas das juntas dos azulejos da casa de banho estavam a ficar negras de bolor. Sinais de decadência, como numa velha boca com reluzentes coroas coladas aos cotos dos dentes, pensou Pippa. Perguntou-se quantas pessoas teriam morrido naquela casa. Marigold Village, condomínio residencial para seniores: um prelúdio do Céu. Ali, não faltava nada: piscina, restaurantes, pequeno centro comercial, bomba de gasolina, loja de macrobiótica, aulas de ioga, courts de ténis, enfermeiros. Havia um psicólogo de serviço, dois conselheiros matrimoniais, um terapeuta sexual e um herbanário. Clube de leitura, clube de fotografia, clube de jardinagem, clube de miniaturas de barcos. Uma pessoa podia fazer tudo ali dentro, sem nunca ter de sair. Pippa e Herb haviam-se deparado pela primeira vez com Marigold Village há vinte anos, quando regressavam à sua casa de praia, em Long Island, depois de um almoço com amigos no Connecticut, tinha Pippa acabado de fazer trinta anos, e Herb, sessenta. Herb enganara-se no caminho e deram por si numa estreita rua serpenteante, ladeada de aglomerados de casas térreas castanho-acinzentadas. Eram cinco horas da tarde, num dia de Abril; a luz do entardecer lançava um tom dourado e difuso sobre os relvados impecavelmente tratados. As casas pareciam todas iguais; à entrada de cada caminho de acesso comum, havia uma colmeia de caixas do correio numeradas. Alguns dos números eram da ordem dos milhares. Herb convencera-se de que bastava virar duas vezes à esquerda e uma à direita para voltarem para a estrada principal, mas parecia que cada curva os sugava ainda mais para o interior do condomínio.

– É como nos contos de fadas – disse Pippa.

– Quais contos de fadas? – perguntou Herb, numa voz exasperada. Pippa tinha a mania de ver poesia em tudo. Ninguém como ela para transformar o facto de se terem perdido num bairro residencial numa história saída da imaginação dos Irmãos Grimm.

– Aqueles – explicou ela – em que há umas crianças que entram numa floresta e, de repente, tudo se transforma à sua volta, todos os pontos de referência da paisagem mudam por magia, e elas perdem-se, e depois aparece sempre uma bruxa qualquer pelo meio.

As árvores esconderam o que restava do sol. A luz esmoreceu.

– Pelo menos uma bruxa poderia dar-nos indicações para sairmos daqui – resmungou Herb, virando o volante, que, nas suas mãos enormes, parecia um brinquedo.

– Acho que já é a segunda vez que passamos por aquela fonte – disse ela, olhando para trás.

Depois de mais vinte minutos às voltas, foram parar à bomba de gasolina de Marigold. Um adolescente simpático, de farda azul-marinha, indicou-lhes o caminho. Era tão simples: bastava virar duas vezes à direita e depois à esquerda. Herb nem conseguia acreditar que não tinha sido capaz de chegar àquela conclusão. Passados uns dias, quando souberam que Marigold Village era um condomínio para reformados, riram-se. Rugas Village, era assim que lhe chamavam as pessoas da zona. «Andámos tanto tempo às voltas», dizia Herb sempre que contava a história, «que estávamos a ver que chegávamos à idade da reforma e já nem valia a pena sairmos de lá.»

A história teve ainda mais piada quando foi contada na festa que Pippa deu para inaugurar a casa, no terceiro sábado depois de se terem mudado para Marigold Village. Muitos dos seus amigos mais chegados encontravam-se presentes para, desconcertados, comemorarem com eles a sua nova vida no condomínio.



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